Aventura Ardente
(Mercenarys Woman)
Diana Palmer

Digitalizado por Sabrina 




Este Livro faz parte de Projeto_Romances,sem fins lucrativos e de fs para fs. A comercializao deste produto  estritamente proibida.



Obs.:  Na verso em portugus, o nome do protagonista foi traduzido por Douglas Scott. Entretanto, para manter a seqncia dos romances da Diana Palmer, o nome consta aqui como no original:  Ebenezer Scott.


CAPTULO I


Ebenezer Scott parou ao lado da caminhonete preta e olhou para a jovem que, do outro lado, examinava o motor de um carro velho e enferrujado. Os longos cabelos louros de Sally Johnson estavam presos em um rabo de cavalo. Ela usava jeans e botas, mas desprezava o chapu. Sorrindo, lembrou quantas vezes a provocara no passado sobre a possibilidade de ter uma insolao. Seis anos haviam se passado desde a ltima vez em que conversaram. Sally morara em Houston at julho, quando retornara para a velha e decada propriedade dos Johnson em companhia de uma tia cega e um primo pequeno.
Tivera chance de v-la algumas vezes desde ento, mas ela se mostrara disposta a evitar at mesmo uma simples troca de cumprimentos. E no podia culp-la. Afinal, fora o causador de cicatrizes emocionais bastante profundas e dolorosas.
Ela era esguia, e a figura elegante ainda fazia seu corao disparar. Sabia o que havia por trs da blusa folgada. Lembrava-se do prazer em seus olhos cinzentos quando a tocava e beijava em locais considerados proibidos. Planejara assust-la para que ela desistisse de provoc-lo, e a tentativa impulsiva surtira um efeito muito maior do que o imaginado. Ela havia fugido... e continuara fugindo. Agora era uma mulher de vinte e trs anos,  provavelmente experiente. Lamentara pelo que poderia ter acontecido se ela fosse mais velha, se ele no houvesse retornado depois de comandar um batalho no pior banho de sangue de sua carreira. Um soldado da fortuna profissional no era o par ideal para uma jovem inocente. Mas, naquela poca, Sally desconhecia sua verdadeira atividade, a vida que levava por trs da fachada de rancheiro e criador de gado. Poucas pessoas naquela pequena cidade sabiam sobre o que fazia.
Seis anos se passaram. Ela crescera e se tornara professora em Houston. E ele... era um aposentado, diziam. Na verdade, ainda participava da linha de fogo ocasionalmente mas na maior parte do tempo dedicava-se a ensinar a outros homens as tticas especializadas de operaes secretas em seu rancho. No que divulgasse essa informao. Mas tinha inimigos dos velhos tempos, e um deles acabara de sair da priso, um homem com sede de vingana e meios para obt-la.
Sally estivera prestes a completar dezoito anos naquele dia de primavera em que a afugentara. Numa vida repleta de pesares e arrependimentos, ela era o maior de todos. Sabia que a situao era impossvel. Mas nunca tivera a inteno de mago-la, e as lembranas ainda pesavam em sua conscincia.
s vezes tentava imaginar se ela sabia por que levava uma vida reservada, sem envolver-se com os habitantes da pequena cidade. Seu rancho era um modelo de sofisticao, desde a academia de ginstica equipada com os mais modernos aparelhos de musculao at o pequeno rebanho de gado Santa Gertrudis que criava. Seus homens no eram apenas leais, mas absolutamente fiis e discretos. Como outro habitante de Jacobsville, Cy Parks, Eb era um recluso. Os dois homens tinham em comum mais do que o gosto pela privacidade. Mas isso era algo que guardavam em segredo.
Sally Johnson perdia a pacincia com seu carro. Sabia que ela tambm possua algumas cabeas de gado no rancho, mas levava uma vida frugal, sustentando no s a si mesma, mas a tia e o primo de seis anos de idade.
Admirava seu senso de responsabilidade, embora se preocupasse com a situao. Ela no sabia por que a tia ficara cega, nem imaginava que toda a famlia corria perigo. Por isso. Jssica a convencera a abandonar seu primeiro emprego de professora em Houston e a voltar com ela e Stevie para Jacobsville. Ali estariam perto de Eb, e Jssica sabia que ele as protegeria. Sally nunca fora informada sobre a verdadeira profisso de Jssica, e tambm ignorava o que seu falecido marido, Hank Myers, fizera para sobreviver. E mesmo que soubesse, nada a teria convencido a voltar. Apenas os apelos persistentes de Jssica foram capazes de convenc-la. Eb reconheceu a dura realidade. Sally tinha todos os motivos do mundo para odi-lo. Mas era sua maior esperana de sobrevivncia, e ela nem sabia disso.
Desde que voltara a Jacobsville, cinco meses antes, conseguira evit-lo. Em uma cidade daquele tamanho, o fato podia ser considerado uma faanha e tanto. Os encontros eventuais eram inevitveis, mas Sally nunca o encarava. E essa era a nica indicao de que as lembranas dolorosas ainda estavam vivas.
Eb notou que ela apoiava a testa sobre um brao na altura do motor, revelando uma mistura de desnimo e impotncia, e decidiu que aquele era o momento ideal para abord-la. Sally levantou a cabea a tempo de ver o homem alto e caminhando em sua direo. Ele no mudara nada. Ainda andava com elegncia e uma certa arrogncia que parecia estranha nas ruas da pequena cidade, o jeans apertado revelava coxas poderosas, e odiava reconhecer a agitao que a invadia diante do inevitvel encontro. Em sua idade, j devia ter superado a paixo e a idolatria adolescentes, especialmente depois do que ele fizera naquele dia de primavera perdido no passado. Ainda corava cada vez que pensava nisso.
Ele parou ao lado do carro, empurrou para trs o chapu caubi, revelando parte dos cabelos castanhos iluminados por mechas douradas, e fitou-a com seus grandes olhos verdes.
- O que quer aqui? 
A hostilidade era evidente em seu tom de voz e na maneira como erguia o queixo, mas ele no se deixou intimidar.
- Pensei que tivesse mais juzo. Por que foi comprar um carro de Turkey Sanders?
 Ele  meu primo.
 Ele  a Peste Negra munida de chaves e motores! Os irmos Hart limparam o cho com ele h alguns anos. A futura esposa Corrigan Hart comprou dele um automvel que se desmanchou quando ela ainda estava saindo do estacionamento. Nesse ponto a mulher teve sorte. Infelizmente, no podemos dizer o mesmo sra. Bates, que comprou um veiculo cujo motor era equipamento opcional, de acordo com as informaes de Sanders.
Sally riu, apesar da irritao.
 O carro  velho, mas no  to ruim  protestou.  S precisa de algumas coisas...
 claro. Um motor retificado, uma nova pintura, assentos, uma reforma na parte eltrica, e pneus que no estejam carecas. Francamente! - exclamou apontando para uma das rodas traseiras. - Precisa trocar esse pneu. At uma professora tem dinheiro para isso.
 Escute aqui, sr. Scott...
 Voc conhece o meu nome, Sally. E quanto ao pneu, precisa realmente troc-lo. Alguns de seus vizinhos no so exatamente companhias recomendveis, e no pode correr o risco de ter um pneu furado no meio da noite naquela estrada deserta.
Estamos no final do sculo vinte. As mulheres j sabem cuidar de suas vidas e...
 No preciso de uma aula sobre as conquistas do  sexo feminino  ele a interrompeu mais uma vez, colocando-se sob o cap aberto. Depois de estudar o motor por alguns instantes, comeou a trabalhar com o auxilio de um canivete que tirou do bolso traseiro da cala.
 E, este carro  meu!  Sally protestou irritada.
 Sua caminhonete  uma piada. Meia tonelada de ferro velho com um motor que no funciona.
Odiava no ser capaz de consertar o defeito sozinha. E pio ainda era depender justamente daquele homem para ajud-la. Se chamasse um mecnico, no poderia arcar com os custos do servio. E olhar para as mos limpas em ao era o bastante para comear a lembrar. Lembranas dolorosas... Conhecia a ternura com que eram capazes de tocar at a pele mais delicada, e ainda sentia uma intensa onda de calor ao recordar certos detalhes.
Menos de dois minutos mais tarde, ele guardou o canivete.
 Tente agora - disse.
Sally sentou ao volante. O motor funcionou ruidoso, lanando uma coluna de fumaa escura pelo escapamento.
Eb parou ao lado da janela aberta.
 Anis e vlvulas desgastados  disse.  Talvez um vazamento de leo. O que quer que seja, prepare-se para enfrentar grandes reparos. E da prxima vez, no faa negcios com Turkey Sanders, mesmo que ele seja seu primo.
No se atreva a me dar ordens.
 Deve ser o hbito. Como vai Jess?
Ela franziu a testa,
 Conhece minha, tia Jessie?
-	Muito bem. E tambm conheci seu tio Hank. Servimos juntos...
 No exrcito?
 Por acaso tem uma arma?  ele perguntou.
 O qu?
Uma arma. Tem alguma que possa usar para defender-se?
-  No gosto de armas. E mesmo que as adorasse, no as teria em casa com uma criana de seis anos por perto. Sendo assim, nem pense em sugerir que eu compre um revlver.
Eb refletiu por alguns instantes.
 Conhece defesa pessoal?
- Leciono nas primeiras sries do ensino fundamental. Meus alunos no me atacam.
- No estou preocupado com sua vida na escola. J disse, Sally, no gosto de seus vizinhos.  No revelaria quem eram ou o que faziam na cidade.
 Tambm no gosto deles, mas no  da sua conta se...
-  Est enganada. Prometi a Hank que cuidaria de Jesse, caso ele tivesse de partir, e estou disposto a cumprir a promessa.
 Posso cuidar de minha tia.
 No pode. Irei visit-la amanh.
 Talvez no esteja em casa.
 Jess estar l. Alm do mais, amanh  sbado. Veio comprar mantimentos hoje e no leciona nos finais de semana. Portanto, estar em casa. O tom de voz indicava que deveria estar.
Sally reagiu indignada:
 Sr. Scott...
 Sou o sr. Scott apenas para os meus inimigos.
 Pois bem, sr. Scott...
Eb no conseguiu controlar a impacincia.
 Voc era jovem demais! O que esperava que eu fizesse? Que a seduzisse na cabine de uma caminhonete em plena luz dia?
Um rubor intenso tingiu seu rosto.
 No estava falando sobre isso
 Ainda posso ver em seus olhos. Gostaria de ter agido de outra maneira, de no ter deixado tantas cicatrizes, mas precisava desencoraj-la. Era impossvel! J deve ter compreendido todas as circunstncias que nos cercavam.
Odiava o constrangimento que sentia.
- No tenho nenhuma cicatriz.
  claro que tem.  E respirou fundo.  Irei a sua casa amanh. Preciso conversar com voc e Jess, Aconteceram algumas coisas que ela desconhece.
 Que tipo de coisas?
Eb fechou o cap da caminhonete e sorriu.
- Dirija com cuidado  disse, ignorando a pergunta.  E troque o pneu.
 No preciso de caridade. No aceito ordens. E no preciso de um homem grande e forte para cuidar de mim?
Ele se virou e caminhou lentamente de volta ao automvel preto parado do outro lado da rua.
Sally estava to abalada, que teve de fazer um enorme esforo para sair da cidade sem causar um acidente.


Jssica Myers estava em seu quarto ouvindo o rdio e Stevie, seu filho, assistia a um programa infantil na televiso quando Sally chegou. Ela descarregou os mantimentos com a ajuda do primo.
 Voc comprou aquele cereal do comercial da tev?  ele exclamou, vasculhando as sacolas enquanto ela ia guardando os itens perecveis no refrigerador.  Puxa, obrigado, tia Sally!
Embora fossem primos, essa era a maneira de Stevie demonstrar afeio e respeito por uma pessoa mais velha.
 No precisa agradecer. Tambm comprei sorvete.
 Uau! Posso prov-lo agora?
Sally riu.
 S depois do jantar. E vai ter de comer um pouco de tudo que eu puser na mesa, certo?
- Ah... bem, certo, acho - o menino respondeu desapontado.
 Este  meu bom garoto. Veja, trouxe mas e pras. Lave uma delas e coma. Frutas so muito boas para quem est crescendo.
 Mas no so gostosas como sorvete.
Stevie lavou uma pra  levou-a para a sala envolta em uma toalha de papel para assistir  televiso.
Sally foi at o quarto da tia, uma mulher delicada e loura com grandes olhos castanhos. Ela fitava o nada, mas sorriu ao ouvir os passos da sobrinha perto da cama.
 Ouvi a caminhonete  disse.  Lamento que tenha tido de voltar  cidade para comprar mantimentos depois de um dia inteiro de trabalho. E ainda trouxe Stevie da escola antes de ir ao armazm.
 No me importo por ter de fazer compras  Sally respondeu com honestidade e afeto.  Tudo bem por aqui?
Jssica mudou de posio sobre os travesseiros.
 Ainda sinto dores por causa do desastre. Tomei um analgsico para aliviar o tormento em minha bacia e decidi deitar-me um pouco para esperar at que o medicamento fizesse efeito.
Sally sentou-se na poltrona ao lado da cama.
- Jess, Eb Scott perguntou por voc e disse que vir v-la amanh.
A mulher no parecia surpresa.
 Eu j esperava  disse.  Recebi um telefonema de um ex-colega a respeito do que est acontecendo. Receio t-la envolvido em uma grande confuso, querida.
- No entendi.
- Nunca quis saber por que eu insisti em mudar-me para c to repentinamente?
 Bem, agora que mencionou...
 Eb est aqui, e perto dele estaremos mais seguras do que em Houston.
- Est me assustando.
Jssica sorriu com tristeza.
 Normalmente no teria permitido que isso tudo acontecesse. No  algo comum. Mas as circunstncias so inusitadas. Um homem que ajudei a prender saiu da priso, e agora est atrs de mim disposto a vingar-se.
 Voc... ajudou a pr um homem na priso? Como?   Sally indagou perplexa.
 Sabia que eu trabalhava para uma agncia do governo?
 Sim, como secretria...
Jessie respirou fundo.
 No, querida. Eu no era secretria. Era agente especial de um grupo de elite. Atravs de Eb e seus contatos, consegui localizar um dos confidentes de Manuel Lopez, um baro das drogas que chefia um cartel internacional. Tinha provas concretas e suficientes para mandar Lopez para a priso por trfico de drogas. Consegui ate cpias de seus livros de registros. Mas havia uma pequena lacuna na cadeia de evidncias, e os advogados de defesa souberam tirar proveito dela. Lopez est livre e quer saber quem me ajudou a peg-lo. Como sou a nica a conhecer a identidade dessa pessoa, ele vir atrs de mim.
Sally permanecia sentada e aturdida. Coisas como essa s aconteciam nos filmes. No faziam parte da vida real. Sua adorada tia envolvida em espionagem?
- Est brincando, no ?	
Jssica balanou a cabea. Aos trinta e cinco anos, ainda era uma mulher atraente e elegante. Stevie, um menino louro de olhos escuros, no herdara seus traos. E tambm no nascera parecido com o pai. Hank tivera cabelos negros e olhos azuis.
 Lamento, querida, mas estou falando srio. No posso mais garantir minha proteo, a sua e a de Stevie, e por isso tive de vir buscar ajuda. Eb nos manter seguros at que possamos levar o baro da droga de volta  priso.
- Eb  um agente do governo? -
- No. No gosto de lhe dizer isso, e ele tambm no vai ficar muito contente, porque o assunto  sigiloso. Precisa jurar que no vai contar nada a ningum.
 Eu juro.
 Doug  um mercenrio, O que costumamos chamar de soldado da fortuna. Ele lidera grupos de homens altamente treinados em operaes sigilosas por todo o mundo. Atualmente est aposentado nas ainda  muito solicitado pelo nosso governo e por autoridades de outros pases como instrutor de treinamento. Seu rancho  muito conhecido nos crculos operacionais como uma espcie de academia de tticas e desenvolvimento de estratgias de inteligncia.
Sally no disse nada. Estava sem fala. Por isso Eb havia sido to discreto. Por isso relutara tanto em permitir que se aproximasse dele. Lembrava-se das pequenas cicatrizes em seu rosto e imaginava que deviam existir outras espalhadas pelo corpo.
 Espero no ter destrudo nenhuma iluso, querida. Sei o que sentia por ele.
 Sabe?
 Doug me contou tudo sobre o que aconteceu entre vocs antes de ir viver comigo e com Hank em Houston.
A vergonha tingiu seu rosto de vermelho. Sentia-se humilhada com a descoberta. Eb sempre soubera o que sentia por ele! E pensar que acreditara ter sido capaz de esconder as emoes. Devia ter imaginado que estava sendo bvia. Afinal, por que teria subido em sua caminhonete e implorado por um passeio naquela bela tarde de primavera no campo? E, para sua surpresa ele atendera ao pedido. Meia hora mais tarde, saltara do banco do passageiro e correra quase dois quilmetros pela estrada que levava  sua casa. Envergonhada demais para encarar algum naquele estado, entrara pela porta dos fundos e fora direto pata o quarto. Jamais contara aos pais ou a outra pessoa qualquer os eventos daquela tarde. Agora imaginava se Jssica sabia disso tambm.
 Ele nunca divulgou nenhum segredo intimo, se  o que a preocupa  a tia apontou com doura.  Doug disse apenas que voc o idolatrava e que ele a afugentara. A histria toda o deixou muito amargurado.
 Nunca pensei que ele pudesse ter ficado perturbado.
Nem eu - Jssica confessou sorrindo. - Fiquei surpresa quando ouvi o relato. Ele me pediu para cuidar de voc e observar suas companhias. Podia ter evitado toda essa preocupao,  claro, porque voc nunca saa com ningum.
 Ele me amedrontou
 Doug sabia disso. Por isso ficou to perturbado.
Sally respirou fundo.
Eu era muito jovem disse finalmente , e creio que ele fez o que julgava correto. De qualquer maneira, pretendia mesmo deixar Jacobsville depois do divrcio de meus pais. Faltava apenas uma semana de aula antes da formatura, antes de me mudar para sua casa. Ele no precisava ter ido to longe.
 Meu irmo ainda se sente um idiota pela maneira corno comportou-se com aquela universitria por quem ele deixou sua me - Jessie comentou, mencionando o nico parente vivo que ainda possua alm da sobrinha.  E tudo ficou muito pior seis meses mais tarde, quando sua me se casou novamente. Ele se sentiu encurralado, amarrado a Beverly, a Beldade.
 Como esto meus pais? - Era a primeira vez que falava neles em muito tempo. Perdera contato com os pais desde o divrcio que destrura sua vida.
 Seu pai passa a maior pane do tempo trabalhando enquanto Beverly percorre o circuito das festas e gasta cada centavo que ele ganha. Sua me separou-se do segundo marido e atualmente vive em Nassau. Nunca mais teve notcias deles, no ?
 O ressentimento j no  to grande quanto antes, mas nunca me senti amada por eles. Por isso decidi seguir por um caminho distinto e solitrio.
- Eles eram apenas duas crianas quando se casaram e tiveram voc. No eram maduros o bastante para assumir todas as responsabilidades. E tambm se ressentiam por isso. Por isso voc passou tanto tempo comigo nos primeiros cinco anos de vida.  Jssica sorriu.  Odiava quando voc ia para casa.
 Por que voc e Hank esperaram tanto tempo para ter um filho?
Jssica corou.
- No era.. conveniente. Hank passava muito tempo fora do pas. Trocou o pneu? - ela indagou, como se quisesse mudar de assunto.
 Como sabe que preciso troar o pneu?
- Doug telefonou pouco antes de voc chegar e me pediu para lembr-la sobre a necessidade da troca.
 Aposto que ele tem um celular no porta-luva da caminhonete.
- Entre outras coisas. Ele no  como os homens que conheceu na universidade ou nas escolas em que lecionou.  especial. No  politicamente correto, no finge ser conformado, mas, em alguns sentidos,  at antiquado.
 No sinto mais nada por ele . Sally anunciou com firmeza.
-  uma pena, porque Doug est sozinho h muito tempo e precisa ser amado.
 Ele tem famlia, no?
 No tem mais. A me morreu quando ele ainda era muito jovem, e o pai era um militar de carreira. Podemos dizer que Eb cresceu no exrcito. O pai morreu em um combate quando ele tinha pouco mais de vinte anos, e no havia mais ningum prximo. Nenhum parente.
 Certa vez voc comentou que sempre o via cercado por belas mulheres em eventos sociais - Sally lembrou com um toque de inveja.
 Um homem atraente nunca sente falta de companhia feminina. Mas ele  cuidadoso com seus raros envolvimentos. Doug me disse que no acredita que possa encontrar uma mulher capaz de entend-lo e aceitar a vida que leva. A verdade  que alguns inimigos ainda sonham em v-lo morto.
 Como o tal baro das drogas?
 Sim. Manuel Lopez  poderoso. Tem muito dinheiro, uma fortuna que no hesita em utilizar para controlar polticos, representantes da lei e at mesmo juizes. Por isso nunca conseguimos trancafi-lo de verdade. Um dia soube que um amigo dele queria revelar informaes, nomes e documentos que garantiriam a priso de Lopez por trfico de drogas. Mas no fui cuidadosa o bastante. Deixei de dar ateno a um pequeno detalhe e os advogados de Lopez o utilizaram em uma petio. Conseguiram libert-lo. Agora ele est solto e disposto a vingar-se de quem o traiu. Far qualquer coisa para saber quem revelou as informaes que o levaram  priso. Qualquer coisa.
 Em resumo, estamos na mira desse homem.
 Exatamente. Sempre fui uma boa atiradora, mas sem minha viso, no posso fazer nada. Amanh Doug ter um plano traado. Escute o que ele vai dizer, Sally, e faa exatamente o que ele mandar. Essa  nossa nica esperana de proteger Stevie.
- Farei o que for necessrio por voc e por Stevie  ela respondeu sem hesitar.
 Eu j sabia.
Sally fez uma pausa breve antes de perguntar:
 Eb nunca teve um envolvimento srio com ningum?
 Sim houve uma mulher em Houston h alguns anos, algum especial, mas ela o abandonou quando soube sobre seu trabalho. Casou-se com um banqueiro muito mais velho que ela. Ouvi dizer que est viva, mas no creio que Doug ainda sinta alguma coisa por essa mulher. Afinal, ela o abandonou.
Sally, que sabia tudo sobre o amor unilateral, tinha suas dvidas. Se ainda alimentava sentimentos secretos por Eb...
 Em que est pensando, meu bem?
- Estava me lembrando daquele velho seriado de televiso a que costumvamos assistir, The A-Team. Fiquei fascinada quando os agentes tiveram de anestesiar o Sr. T. para coloc-lo no avio e tir-lo do pas  riu.
 Era um filme divertido. Mas desprovido de realismo.
 A que parte se refere? 
- A todas.
E Jssica devia saber o que estava dizendo.
 Por que nunca me contou o que fazia para viver?
 Porque voc no precisava saber. Agora tudo mudou, e por isso achei melhor revelar a verdade.
 Se conhecia Eb quando ele ainda atuava como mercenrio, deve, ter aprendido muito sobre esse trabalho.
Jssica ficou sria.
 Aprendi muito. Demais. Homens assim so incapazes de relacionamentos duradouros. No conhecem o significado das palavras amor e fidelidade.
- Por que diz isso? Tio Hank tambm foi um mercenrio?
 Sim, por pouco tempo. Mas Hank nunca foi do tipo que arrisca a prpria vida por imprudncia. Ironicamente, morreu no exterior enquanto dormia, vitima de uma patologia cardaca sobre a qual ningum tinha conhecimento.
Mais uma surpresa entre outras tantas. Tio Hank havia sido um homem imponente e sedutor, mas nunca demonstrara muita firmeza ou coragem.
 Eb disse que serviu com tio Hank.
 Sim, no treinamento bsico, antes de se juntarem aos Boinas Verdes. Hank no foi aprovado. Doug seguiu em frente e foi selecionado para a Dana do Leque.
 Dana do Leque?
  um curso especializado que os rapazes dos comandos britnicos, o Servio Areo Especial, tm de realizar. Poucos soldados conseguem conclu-lo, muito menos na primeira tentativa. Doug conseguiu. Foi emprestado ao grupo enquanto estava no servio secreto do exrcito para uma misso sigilosa e muito importante.
Sally nunca havia pensado muito na profisso de Eb, presumindo que ele fosse apenas um simples integrante do exrcito. No sabia o que sentia com relao ao que acabara de ouvir. Um militar podia ter dois ou trs pontos sensveis na alma, mas um mercenrio, um soldado de aluguel... No  havia nada dentro dele alm de frieza.
 Por que est to quieta querida?-
 Nunca pensei que Eb pudesse estar envolvido nesse tipo de trabalho  respondeu, levantando-se para ir apreciar a paisagem de novembro atravs da janela do quarto.  Estava bem na frente do meu nariz, e eu nunca percebi. Agora entendo por que ele sempre fez tanto segredo em torno de sua vida profissional.
- E ainda faz. S algumas pessoas conhecem seu passado. Os homens que o cercam,  claro...
 Voc os conhece?
 Apenas um ou dois. Creio que Dallas Kirk ainda trabalha para ele. E Micah Steele presta servios de consultoria quando Doug solicita. Jessica sorriu.  Micah  um bom rapaz. E o nico dos ex-companheiros de Doug que ainda permanece no ramo. Ele vive em Nassau mas ajuda Eb a treinar um ou outro grupo quando necessrio.
 E Dallas Kirk?
Jssica cerrou os punhos
 Dallas foi gravemente ferido em um bombardeio h um ano. Voltou para casa arruinado, e Doug encontrou uma posio para ele nos cursos de ttica.  professor. Ele no fala comigo,  claro. Tivemos uma separao bastante difcil h anos.
O relato a intrigava, e Sally prometeu a si mesma que algum dia descobriria mais sobre o assunto. Mas no de imediato. No podia abusar da sorte.
 O que acha de jantarmos fajitas? - sugeriu.
Jssica sorriu.
 Maravilhoso.
 Vou comear a prepar-las agora mesmo.
Sally voltou  cozinha com a cabea repleta de informaes surpreendentes sobre pessoas que julgara conhecer. A vida era sempre cheia de surpresas.




CAPTULO II

Na manh seguinte, Sally estava perto da cerca do curral, observando suas duas cabeas de gado pastando, quando Eb chegou. Decidira criar os animais de corte com a idia de estocar o freezer, mas agora que tinham nomes e faziam parte da vida no rancho, no conseguia pensar em sentar-se diante de um prato contendo pedaos deles.
Eb desceu da caminhonete e aproximou-se dela.
 No me diga. Aqueles so seus bifes.
Sally revelou o ressentimento no olhar.
 Certo.
 E vai coloc-los no freezer.
Ela engoliu em seco.
 Exatamente.
 Os animais tm nomes?
 Andy e... Bob. Atualmente so como ces de guarda.
 Ces de guarda?
 Eles me protegem. Se perceberem que algum est tentando atacar-me, investem contra o agressor a fim de proteger-me. E claro que, se forem mortos no cumprimento do dever, eu os comerei.
Eb riu.
 Voc no mudou muito em seis anos.
 Nem voc.  E apontou para o cigarro aceso entre seus dedos.  Continua fumando.
 Um homem precisa de um ou dois vcios para suportar a tenso. E sou um fumante eventual. Jamais acendo um cigarro em lugares fechados ou dentro de casa. Li os estudos recentes sobre os efeitos do fumo.
 Muitos fumantes pararam de fumar depois de lerem esses estudos.
 Desista, Sally. No vai conseguir reformar-me. Tenho trinta e seis anos e aprecio meus hbitos de vida.
 J notei.
Ele deu uma tragada no cigarro e olhou para os bois.
 Suponho que a sigam como ces de guarda.
 S quando passo para o outro lado da cerca.
Sentia-se estranha com ele; segura e, ao mesmo tempo, nervosa e excitada. Podia sentir o perfume do sabonete e da colnia exclusiva. Podia notar a sensualidade vibrando em seus msculos. Queria aproximar-se, sentir essa fora na pele, e isso a incomodava. Depois de seis anos, a atrao devia ter diminudo.
Ele percebeu como as mos delicadas se retardam. Sorrindo, encarou-a com aqueles enormes olhos verdes.
Sally sentiu o olhar, mas recusou-se a erguer a cabea. Gostaria de saber se parecia to agitada quanto estava.
 Voc no esqueceu nada  ele disse repentinamente.
 Sobre o qu?
Eb segurou-a pelo rabo de cavalo e puxou-a para mais perto. O cheiro da pele bronzeada, o calor do corpo musculoso e a proximidade causaram um tremor e uma onda de emoes contraditrias.
Podia senti-la tremendo. Ouvia a respirao ofegante e via a veia pulsando em seu pescoo.
Era um alivio saber que Sally ainda se sentia atrada por ele.
Arrogante e orgulhoso, soltou o rabo de cavalo e pousou a mo em seu rosto, deixando um dedo deslizar ate o queixo para ergu-lo,
 Para tudo existe um tempo certo  disse. 
Sentia o impacto do olhar penetrante em seu rosto, em cada parte de seu corpo. No tinha experincia suficiente para proteger-se, e por isso ficou onde estava, deixando as inseguranas e os temores buscarem expresso em seus olhos cinzentos.
De repente ele abaixou a cabea e encostou o nariz no dela.
O hlito de cigarro penetrou em seus sentidos.
Seis anos representam um tempo longo demais para quem tem fome  murmurou.
No entendia o que ele estava dizendo. Os olhos estavam em sua boca, e suas mos haviam buscado o apoio do peito amplo. Podia sentir as batidas do corao descompassado. Quando a boca apoderou-se da dela, Sally temeu desfalecer de prazer. H quanto tempo!
Eb sentiu a submisso imediata e impotente. Sem pressa, passou um brao em torno de seus ombros e puxou-a contra o corpo, saboreando os lbios carnudos e estudando sua experincia.
Depois de alguns instantes, ergueu a cabea e sorriu:
- Voc ainda tem sabor de limonada e algodo doce.
 O que quer dizer?  Era difcil superar o torpor.
 Estou dizendo que ainda no sabe como agir em certas circunstncias. Acho que causei um dano maior do que pretendia. Voc tinha dezessete anos. Fui obrigado a mago-la para salv-la. No imagina como era minha vida naqueles dias.
 Tia Jssica me contou.
Os olhos tornaram-se escuros. O rosto endureceu.
 Tudo?
Ela assentiu.
Eb ainda estava aborrecido. Devagar soltou-a e olhou para um ponto distante enquanto levava o cigarro  boca. Depois de soprar uma nuvem de fumaa, disse:
- Preferia que no soubesse.
 Segredos so perigosos.
 Mais do que pode imaginar. Os meus foram guardados por muito tempo, como os de sua tia.
 Nunca desconfiei do que ela fazia para viver. Graas a vocs dois, agora entendo os sentimentos de um cogumelo criado na escurido.
Ele riu.
 Sua tia preferiu que fosse assim. Ela acreditava que voc estaria mais segura se no soubesse de nada.
Eb estudou os olhos cinzentos, a boca de contornos perfeitos e o rosto delicado. Ela tinha o dom de alegrar seu corao. V-la era o bastante para sentir-se bem-vindo, confortado, querido. Sentira falta desses sentimentos. Em toda sua vida, Sally havia sido a nica pessoa capaz de superar seu mal humor e seu temperamento sombrio. Ela o fazia sentir que pertencia a algum lugar depois de muito tempo perambulando. Mesmo durante o tempo em que ela esteve em Houston, mantivera contato com Jssica para ter notcias de Sally, saber sobre seu paradeiro e o que fazia com seu tempo. Sempre tivera esperanas de um dia v-la voltar, ou de ir procur-la, apesar de como se haviam despedido. O amor, se existia, era certamente uma fora poderosa, uma emoo imune s palavras rspidas e  distncia. E ao tempo.
Sally estava atenta e excitada. No conseguia esconder o que sentia, e era bom poder testemunhar esses sentimentos.
A idolatria da adolescente ingnua o irritara a princpio, mas depois o fascinara. Era desejado e assediado pelas mulheres desde os quinze anos de idade, e algumas o perseguiram pelo perigo que o cercava, pela aura de aventura. Uma o rejeitara por isso e despertara seu orgulho. Mesmo assim, apenas Sally o fizera doer por dentro.
 Precisamos praticar mais  disse com um sorriso malicioso enquanto tocava seus lbios.
Sally abriu a boca para protestar, mas foi interrompida pela chegada repentina do primo. Stevie passou pela porta da cozinha como um furaco louro e atirou-se nos braos de Eb.
 Tio Doug!  gritou, revelando uma intimidade surpreendente
 Ol, campeo. Quer ir  minha casa com Sally e aprender um pouco de carat?
 Como no filme das Tartarugas Nnjas? Radical!
 - Carat? Sally perguntou hesitante.
 Apenas alguns movimentos para a defesa pessoal. Garanto que vai gostar. E  necessrio  acrescentou com firmeza. 
- Bem, nesse caso...
Eb conduziu o pequeno grupo  sala de estar, onde Jssica ouvia o jornal da tev.
- Toda essa confuso nas ilhas Balkans!  ela comentou com tristeza.  Quando comeamos a acreditar na possibilidade um pouco de paz, tudo explode novamente. Pobre povo!
  Fortunas da guerra  Doug respondeu com tom conformado.  Como tem passado, Jess?
 No posso reclamar. O nico problema  que no posso mais dirigir.
Oh, espere s at os cientistas aperfeioarem aquele equipamento de viso virtual! Vai poder fazer tudo que quiser.
- Otimista! ela riu.
-  Sempre. Escute, vou levar estes dois ao meu rancho para algumas aulas elementares de defesa pessoal.
 Boa idia.
 No gosto de deix-la aqui sozinha  Sally revelou, lembrando o que ouvira sobre o perigo a que estavam expostos.
 Ela no vai ficar sozinha  Doug explicou. Dei ordens a Dallas Kirk para vir fazer companhia a Jess.
 No!  Jssica levantou-se perturbada.  No quero ele perto de mim, Doug. Prefiro ser morta a tiros!
 Lamento mas a situao no permite mltiplas escolhas - anunciou uma voz profunda do hall.
Sally desviou os olhos do rosto plido da tia e viu um homem louro, alto e de olhos escuros entrando na sala. Ele caminhava com o auxilio de uma bengala e vestia roupas casuais, uma cala cqui e uma jaqueta de tecido esportivo que lembrava o uniforme dos caadores da frica.
- Este  Dallas Kirk - Doug o apresentou.  Ele nasceu no Texas. Seu verdadeiro nome  Jon, mas sempre o chamamos de Dallas. Esta  Sally Johnson  disse ao homem louro.
  um prazer conhec-la  respondeu Dallas com tom formal.
 J conhece Jess  Eb acrescentou.
 Sim, eu... j a conheo.
O rosto de Jssica passou do plido ao vermelho.
 Certamente podem conviver em paz por uma ou duas horas  Doug apontou impaciente.  No posso deix-la aqui sozinha, Jess.
- Importa-se de explicar por qu?  Dallas tambm soava irritado. - Ela atira melhor do que eu.
Jssica permanecia em p ao lado da cadeira.
 Ele no sabe?
 No. Dallas se recusava a falar em seu nome, e quando tudo aconteceu, ele estava fora cumprindo uma misso.
 Do que esto falando? O que ainda no sei? 
Jssica ergueu o queixo.
 Estou cega  anunciou sem rodeios, quase com satisfao, como se quisesse feri-lo com a notcia.
A expresso do recm-chegado era uma revelao. Sally s gostaria de saber do qu. Ele se encolheu como se houvesse sofrido um golpe fsico, e depois caminhou devagar at estar prximo o bastante para acenar diante de seu rosto.
 Cega!  repetiu assustado.  H quanto tempo?
 H seis meses.  Estendeu as mos para localizar cadeira, sentou-se e acrescentou:  Sofri um acidente.
 No foi um acidente  Doug interferiu.  Ela foi jogada para fora da estrada por dois homens de Lopez. Os bandidos fugiram antes da chegada da policia.
Sally cobriu a boca com uma das mos. Essa era uma nova verso. Sabia sobre o acidente, mas nunca ouvira detalhes sobre o que o causara.
 Stevie est bem? Dallas perguntou apreensivo.  Tambm foi ferido?
 Ele no estava comigo. Felizmente est bem. Sally vive conosco e me ajuda a cuidar do garoto. Ns dividimos as tarefas. Ela  minha sobrinha  acrescentou subitamente, como se quisesse preveni-lo.
Dallas parecia preocupado. Mas quando Stevie entrou correndo na sala, seus olhos adquiriram um brilho mais intenso ansioso.
 Estou pronto!  O menino anunciou, abrindo os braos mostrar o conjunto de moletom cinza que vestira.  E assim que eles se vestem nos filmes da tev.
 Perfeito!  Doug aprovou sorrindo.
 Quem  ele?  Stevie apontou para o homem louro que o como se estivesse hipnotizado.
 Oh, esse  Dallas. Ele trabalha para mim.
 Ol. Com um nome como esse, s pode ser do Texas. Eu... sinto muito sobre sua perna, sr. Dallas. Di muito?
Ele respirou fundo antes de responder:
 S quando chove.
 Minha me tambm reclama de dor na bacia quando o tempo fica chuvoso. Vai participar da aula de carat?
 Oh, no!  Doug respondeu pelo amigo. Ele sabe mais do que eu. No, Stevie. Dallas vai ficar aqui cuidando de sua me enquanto estamos fora.
- Por qu?  O menino parecia intrigado.
 Porque ela sente dor na bacia  Sally mentiu.  Podemos ir?
 Agora mesmo! At mais tarde, me.  Stevie correu a beij-la e abra-la. Depois recuou e sorriu para o homem louro que permanecia srio.  At qualquer dia.
Dallas assentiu.
Sally estava perplexa com a semelhana entre os dois, tanto que quase a comentou. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Doug a encarou com uma expresso significativa, a que no conseguia decifrar, mas que a deteve.
 E melhor irmos - ele disse, segurando o brao de Sally
 Venha, Stevie. No vamos demorar, Jess.
 Estarei contando os minutos.
Dallas no disse nada. Por sorte, Jssica no podia ver a tristeza em seus olhos.

O rancho Scott era uma propriedade impressionante. Havia um heliporto, uma pista de pouso com hangar, uma piscina e uma casa que devia ter acomodaes para trinta pessoas. Tambm havia fileiras de alvos, chals para hspedes e uma formidvel academia de ginstica instalada em um galpo de propores gigantescas. As antenas parablicas eram muitas e cmeras de segurana podiam ser vistas em todos os edifcios.
 Isto  incrvel  Sally comentou ao entrar na academia
 A manuteno  ainda mais impressionante  Doug respondeu.  No tem idia do nvel de tecnologia necessria para manter tudo funcionando.
Stevie rolava no tatame e esmurrava o saco de areia pendurado na viga de ao que sustentava outro equipamento de musculao.
 Stevie  muito parecido com aquele homem  ela disse de repente.
 Nunca conversou com Jess sobre Dallas?
 No. Ela jamais mencionou o nome dele.
 Bem, o assunto  particular, e acho melhor que ela conte tudo o que julgar conveniente. E quando quiser falar.
Sally olhou para o garoto que se divertia com os aparelhos
 Ele no  filho de meu tio, ?
 Por que diz isso?
 Porque ele  quase uma cpia reduzida de Dallas. Alm do mais, tio Hank e tia Jess viveram muitos anos casados sem terem filhos, e de repente ela ficou grvida pouco antes de meu tio embarcar para o exterior. Stevie foi como um milagre.
 Em alguns aspectos, creio que ele . Mas a gravidez levou Hank a alistar-se para uma misso de combate, e embora ele tenha morrido de um ataque cardaco, Jess ainda no superou a culpa. No pode dizer a ela que conhece a verdade.
 Eu no direi. Conte-me o resto, Eb.
 Ela e Dallas trabalhavam juntos em uma misso. Foi uma dessas atraes incontrolveis que desafiam a moral, os escrpulos e o bom senso. Eles passavam muito tempo sozinhos, e finalmente o inevitvel aconteceu. Jess ficou grvida. Quando Dallas descobriu, quase enlouqueceu. Exigiu que ela se divorciasse de Hank para casar-se com ele, mas sua tia estava irredutvel. Jurava que Dallas no era o pai da criana, que o filho era de Hank, e no tinha a menor inteno de desfazer o casamento.
 Meu Deus...
 Hank sabia que ela havia estado com outro homem, por que ele sempre foi estril. Dallas no sabia disso. E Hank s contou a verdade a Jssica quando ela anunciou a gravidez. Ele no a perdoou. Nem Dallas. Quando Hank morreu, Dallas nem tentou entrar em contato com Jess, porque acreditava que Stevie era filho de Hank. Isto , ele acreditou nisso at dez minutos atrs. No  preciso um diploma de gentica para perceber a semelhana. E no creio que devamos voltar antes de duas ou trs horas. No quero ser testemunha da exploso que deve estar ocorrendo naquela casa.
 Pobre Jess.
Pobre Dallas. Depois da briga com Jssica, ele passou a dar preferncia s misses mais perigosas, e foi mandado para casa com ferimentos que teriam matado um homem menos resistente.
 No  de espantar que ele parea amargo.
 Ele  amargo porque amava Jess, e embora tivesse certeza da retribuio desse amor, no conseguiu convenc-la a deixar o marido. E no final, ela magoou Hank da mesma forma. O homem no conseguiu conformar-se com a idia de conviver com o filho de outro homem. A traio destruiu o casamento.
 Uma tragdia para todos os envolvidos...  ela refletiu.
 Sim.
- Stevie  uma criana encantadora.
 E tem fibra e personalidade. No estaria dizendo tal coisa se tivesse de convenc-lo a dormir  meia-noite.
Eb sorriu.
 Voc gosta de crianas, no? 
- Oh, sim. Adoro lecionar.
- No quer ter filhos?
 Sim, um dia... A resposta soou constrangida.
 Por que no agora?
 Porque j tenho mais responsabilidades do que posso suportar. A gravidez seria uma complicao que prefiro evitar, ao menos por enquanto.
 Est falando como se pretendesse ter filhos sozinha.
Sally encolheu os ombros.
 J ouviu falar em inseminao artificial?
 J pensou em como seria carregar o filho de um homem que nem conhece? 
Ela mordeu o lbio. No havia considerado os aspectos mais ntimos da questo. Estava confusa, e no era capaz de esconder o sentimento.
 Um beb deve ser criado com amor, de maneira natural, no no interior de um tubo de ensaio. A menos que seja a nica soluo para duas pessoas que se amam e no podem ter filhos de outra maneira.
Uma intensa onda de emoo provocou a resposta sincera.
 No sei... se algum dia voltarei a me relacionar com algum.
 Sally, no pode permitir que o passado a condene  eterna solido. Eu a assustei porque queria mant-la afastada de mim. Se no a desencorajasse, a tentao seria forte demais para mim. E voc era uma criana... O que aconteceu no teria sido to importante, caso tivesse alguma experincia com os homens. Pelo amor de Deus, nunca permitiram que voc tivesse um namorado?
 No. Minha me tinha certeza de que eu acabaria grvida ou contaminada por alguma doena terrvel. Ela falava nisso o tempo todo. Causava um constrangimento to grande aos rapazes que iam  nossa casa, que nenhum deles voltava.
 Eu no sabia disso.
 Teria feito alguma diferena?
Eb tocou seu rosto com os dedos.
 Sim. Se soubesse, no teria ido to longe.
 Queria se livrar de mim...
 Queria voc. Mas uma jovem de dezessete anos no  madura o bastante para uma relao amorosa. E a situao teria sido impossvel em Jacobsville, mesmo que eu fosse louco o bastante para ir em frente. Voc  quase treze anos mais nova que eu.
Estava comeando a analisar as circunstncias sob o ponto de vista de Eb, algo que jamais havia tentado antes. Consumida pelo ressentimento, pela amargura e pela dor, nem pensar em se esforar para ser racional. E pela primeira vez podia ver em seus olhos o sofrimento provocado pelas lembranas.
 Estava desesperada  disse.  Eles me disseram que iam se divorciar. Estavam vendendo a casa e pretendiam deixar a cidade. Papai tinha planos para casar-se com Beverly, aquela garota que ele conheceu enquanto lecionava na universidade. Mame no suportava a idia de continuar vivendo em um lugar onde todos sabiam que o marido a havia trocado por uma mulher mais jovem. Pouco depois ela se casou com um homem que mal conhecia, s para preservar seu orgulho. Sabia que nunca mais o veria e... Bem, s queria conhecer o sabor de seu beijo. Acho que estava meio maluca.
 Ns dois estvamos. - E segurou seu rosto para fit-la nos olhos.  Juro que nunca tive a inteno de ir alm de um beijo. Um beijo inocente, se quer a verdade. Agora entende porque perdi o controle.
 Eu... entendo? No, Doug.
 Como pode ser to ingnua com a idade que tem? Nunca leu nada sobre o assunto?
 No.
 Cus. Prometo que vou comprar alguns livros para voc. Talvez algumas fitas de vdeo, tambm.
 Ora, seu pervertido!
 No.  Sorrindo, Eb levou os dedos dela  boca e lambeu um deles.  Lembra-se disso, no? Sabe o que vem em seguida?
Sally recuou e olhou em volta, preocupada com Stevie, mas ele continuava esmurrando o saco de areia, sem dar ateno aos adultos.
Doug mantinha os olhos fixos em seus seios e sorria.
Ela cruzou os braos antes de encar-lo.
 Pare com isso! Aposto que no nasceu sabendo de tudo.
 Tem razo, mas tambm no tive uma me para manter meu nariz limpo. Meu pai era um militar por natureza, algum que no acreditava em gentileza ou diplomacia. Sempre usou as mulheres, e sempre tentou convencer-me de que esse era o caminho correto. Ele me dizia que no existia uma nica mulher decente no mundo, que todas haviam sido criadas para serem usadas e abandonadas.
 Mas... ele no amava sua me?
 Ele a desejava, e minha me negou-se a ceder a seus apelos antes do casamento. Por isso se casaram. E ela morreu quando eu nasci. Meus pais viviam em uma pequena cidade prxima da base militar onde ele servia. Meu pai teve de ir para o exterior numa misso, e minha me ficou sozinha naquele lugar isolado. Ela entrou em trabalho de parto, surgiram complicaes... Quando foi encontrada, no havia mais nada a ser feito. Se um vizinho no houvesse ido procur-la, eu teria morrido com ela.
 Deve ter sido um choque para seu pai.
 Se foi, ele nunca demonstrou. Deixou-me com uma prima at que eu tivesse idade suficiente para cumprir ordens, e depois fui morar com ele. Aprendi muito com meu pai, mas ele nunca foi um homem amoroso. Quando cresci, segui seu exemplo, o nico que tinha, e ingressei nas foras armadas. Tive a sorte de fazer parte dos Boinas Verdes. Mais tarde, quando estava prestes a ser desligado do grupo, um homem abordou-me para falar sobre uma misso secreta e sobre como eram recompensados os homens que assumiam tais responsabilidades. O dinheiro  uma grande tentao para um jovem com um pai dominador. Eu aceitei a misso, e ele nunca mais voltou a falar comigo. Disse que o que eu estava fazendo era uma perverso do ponto de vista militar, e que eu no servia para ser filho de um oficial. Fui deserdado e abandonado. Nunca mais tive notcias dele. H alguns anos, recebi uma carta de seu posto de comando comunicando que meu pai havia morrido em combate. Ele teve um funeral com todas as honras militares.
A dor do passado estava estampada no rosto duro. Num impulso, Sally tocou seu brao.
 Sinto muito  disse.  Ele deve ter sido o tipo de homem que s enxerga um lado da situao.
Surpreso com a demonstrao de compreenso e piedade, Eb apelou para o sarcasmo.
 No acha que os mercenrios so a encarnao do mal, srta. Pureza?



CAPTULO III

Sally afastou-se
 No  respondeu embaraada. - Existem vrios paises onde atrocidades so cometidas, lugares cujos governos no tem recursos ou fora humana suficientes para proteger o povo. Assim, outros devem ser contratados para garantir essa proteo. Se a causa for justa, no condeno o trabalho dos mercenrios.
Sua atitude objetiva era surpreendente. Passara anos imaginando como ela reagiria quando soubesse qual era seu trabalho. Havia esperado tudo, da revolta ao choque, especialmente depois de ter testemunhado a reao da ex-noiva, mas Sally no criticava nem julgava seu comportamento.
 No espero que considere meus motivos nobres  disse.
 Mas  o que so, no?
 No meu caso, sim. Nunca atuei apenas pelo dinheiro. Tinha de acreditar que estava arriscando a vida por um motivo justo.
 Deve ter muitas histrias para contar.
 Tenho, mas agora precisamos trabalhar. No dispomos de muito tempo. Aposto que Jess vai telefonar a qualquer momento exigindo que Dallas seja retirado de sua casa.



Dallas lamentava que ela no pudesse v-lo, pois sabia que a ira estava estampada em seus olhos.
- Acha que no percebi que Stevie  parecido comigo? Meu filho! O garoto  meu filho! Voc mentiu para mim para continuar vivendo com Hank.
 Pelo amor de Deus, o homem me adorava! Jamais havia me trado! No podia simplesmente anunciar que estava tendo um caso com seu melhor amigo!
 Eu podia ter conversado com ele. .Hank no era nenhum santo, Jess, apesar das asas que est tentando colocar nas costas dele. Acha mesmo que ele nunca teve outra mulher durante os perodos que passou fora?
- Mentira!
 Verdade! Ele sabia que no podia engravidar ningum. E no acreditava que voc pudesse descobrir suas... pequenas escapadas.
Jess levou as mos  cabea. Nunca imaginara que Hank a houvesse enganado. Fora consumida pela culpa e durante todo o tempo ele tambm a trara. E a julgara brutalmente pelo erro cometido.
- Eu no sabia...  gemeu infeliz.
 Teria feito alguma diferena?
 No sei. Talvez. Sempre soube que Stevie era seu filho, no?
 No. S fiquei sabendo sobre a condio de Hank mais tarde. Voc afirmava que ele era o pai e eu acreditava em sua palavra. Quero dizer, no tinha certeza nem de que o filho era dele.
 O qu? Est insinuando que foi apenas mais um nome em uma lista de amantes?
 Sabia pouco sobre voc, exceto que havia me enfeitiado. E sabia que Hank a enganava freqentemente. Presumi que tivesse a mesma liberdade. Sugeri que se divorciasse dele para ouvir o que diria. E a resposta foi exatamente aquela que eu esperava. Estava claro; voc preferia continuar vivendo com um marido que tolerava sua infidelidade, sem correr o risco de apaixonar-se e ter de assumir compromissos.
 Sempre acreditei em meu casamento, at voc aparecer.
 No se atreva a falar do nosso envolvimento como algo barato, Jess. Nenhum de ns teve foras para evitar aquela noite. Nem pensamos em tentar
A lembrana ainda tinha o poder de lev-la s lgrimas Apaixonara-se pela primeira vez na vida, e no fora pelo marido. Desde ento aquele homem a atormentara. Stevie era uma cpia fiel de seu nico amor.
 Fiquei to envergonhada! No havia trado apenas Hank mas tudo em que acreditava sobre lealdade, dever e honra. Depois disso, passei a  me sentir como a atrao especial de uma noite de sbado em um bordel barato.
- Eu nunca a tratei desse jeito.
  claro que no. Mas sempre acreditei que as pessoas se casam uma s vez, que so fiis e honestas para sempre. Era virgem quando me casei com Hank, e ningum em minha famlia jamais havia se divorciado. Meu irmo, o pai de Sally, foi o primeiro. Meus pais foram felizes juntos por cinqenta anos, at que a morte os separou.
 s vezes unio no d certo. Ningum  culpado por isso.
- Talvez no.  Jess respirou fundo e enxugou as lgrimas.
  Doug contou que voc foi ferido no estrangeiro. Conseguiu recuperar?
Ele se sentou diante dela, deixou a bengala no cho e segurou as mos delicadas e plidas.
 Estou melhor do que voc  disse.  Que preo alto teve de pagar por aquela noite!
Podia sentir as lgrimas queimando seus olhos novamente.
 Tem razo, foi um preo muito alto. - Soltando uma das mos, estendeu-a tentando localizar o rosto que conhecia to bem. Quanto o tocou, reconheceu atravs do tato os traos que tantas vezes beijara.  Stevie  muito parecido com voc.
 Sim, eu sei.
  Por favor, no me odeie.
Ele empurrou os dedos como se o queimasse.
Foi tudo o que fiz nos ltimos cinco anos. Mas voc tem razo. Nem todo o dio do mundo pode mudar o passado. Temos de colar os pedaos e seguir em frente.
Podemos ser amigos?
Ele riu tom frieza.
  isso que quer?
Jssica assentiu.
 Doug mencionou que desistiu das misses no exterior e est trabalhando para ele. Quero que se aproxime de Stevie e tente conhec-lo, s para o caso de...
 Pare com isso!  Descontrolado, levantou-se como auxlio da bengala.  Lopez no vai encontr-la. No permitiremos que nada de mal acontea com voc.
Ela respirou fundo e no respondeu. Ambos sabiam que Lopez tinha contatos em todos os lugares e que jamais desistia de um propsito. Se a queria morta, encontraria um jeito de mat-la. E no queria que o filho ficasse sozinho no mundo.
- Vou preparar um pouco de caf - Dallas decidiu, recusando a pensar no mundo sem ela.  Como prefere o seu?
- Tanto faz.
Sozinha na sala, Jssica tentou contemplar os novos rumos que sua vida tomava. 


- Voc deve estar... brincando!  Sally explodiu ao levantar-se do tatame pela vigsima vez.  Quer dizer que devo passar duas horas sendo atirada no cho? Pensei que ia aprender algumas tcnicas de defesa pessoal!
-  o que estamos fazendo  Eb respondeu.  Primeiro tem de aprender a cair sem se machucar. Depois seguiremos para as etapas seguintes. Socos, chutes, golpes certeiros... Um passo de cada vez.
Apesar de todo o trabalho que tinha cuidando da casa, devia estar fora de forma, ou no suaria tanto.
- Parece simples quando voc fala. Quantas horas treina por dia?
 Muitas. No posso perder a condio fsica e a agilidade ou no servirei de nada para meus alunos. Bom trabalho, Stevie!  elogiou, vendo que o garoto executava as quedas laterais com perfeio.
  claro que ele est se saindo bem! Stevie est to perto do cho que no precisa se esforar.
- Pobre velha enferrujada!
 No sou velha. Estou apenas... fora de forma.
 Engraado, no foi a impresso que tive. E no me refiro apenas ao carat.	
Sally levantou-se para esconder um rubor.
 Quando comeou a aprender a lutar?
- Quando entrei na escola primria. Meu pai ensinou-me.
 Oh, por isso diz que  fcil! 
-Eu treino muito. As tcnicas de defesa pessoal serviram para salvar minha vida dezenas de vezes.
Ela estudou o rosto marcado por cicatrizes. Podia ver a passagem dos anos em cada linha, as provaes que a vida impusera. Sabia pouco sobre suas operaes militares. Tentou imaginar um... inimigo armado investindo contra ela e estremeceu.
 Algum problema?
 Estava tentando imaginar um ataque. Acho que fiquei nervosa.
 Vai superar o nervosismo na medida em que ganhar confiana. Levante-se e mantenha o corpo ereto. Jamais caminhe de cabea baixa ou com as costas inclinadas. Tente agir sempre como se soubesse para onde vai, mesmo que no saiba. E sempre, sempre, fuja se puder. Jamais enfrente um inimigo, a menos que esteja encurralada e sua vida corra perigo.
 Fugir? Est brincando?
 No. Quer um exemplo? Um homem com a sua estatura e seu peso pode valer por trs, se estiver sob o efeito de drogas pesadas. O que est aprendendo aqui pode surtir efeito se tiver de enfrentar um inimigo despreparado e sbrio. Mas um homem animado pelo lcool ou pelas drogas pode mat-la com as mos limpas, apesar de tudo que estou lhe ensinando. Jamais se esquea disso. Confiana em excesso pode ser fatal.
 Aposto que no ensina a seus homens essa tcnica de fugir.
 Sally um recruta do meu grupo esvaziou o pente do rifle contra um soldado adversrio que havia usado drogas. O homem continuou avanando em sua direo e o matou antes de cair morto.
Ela o encarou boquiaberta.
- Minha reao foi muito parecida com esta. Incredulidade. Mas estou dizendo a verdade. Se algum impelido por drogas tentar atac-la, nem pense em conversar ou convenc-lo de qualquer coisa... porque no vai conseguir. E no tente lutar contra ele. Fuja. Corra com todas as foras. Se um fusil automtico no pde derrubar um homem nesse estado, no ser voc que conseguira det-lo. Nesse tipo de situao, o bom senso aconselha a fuga rpida e imediata. E o orgulho que v para o inferno.
 Vou me lembrar disso. Voc  um excelente professor.
 Sou mesmo?  Ele riu.  Conheo algumas outras reas em que meu conhecimento pode ser bastante til.
Sally olhou para Stevie, que continuava se jogando de um lado para o outro no tatame.
 Acho melhor continuar me dedicando  lio  disse  Se aprender a cair com perfeio, talvez possa me jogar sobre um adversrio.
 Uma ttica intil, a menos que pretenda ganhar cento e cinqenta quilos. Mas, se quiser tentar, pode experimentar comigo. Talvez consiga imobilizar-me. Quer que eu me deite enquanto voc pratica?
Ela riu.
 No creio que esteja pronta para um estgio mais avanado do curso.
- Por que a pressa? Temos muito tempo.
Sally lembrou-se de Jess e do baro da droga, e o sorriso desapareceu de seus lbios.
 Estamos realmente correndo perigo em casa, ou...
 Ele a interrompeu com um gesto.
- Stevie, que tal um refrigerante?
 Radical!
 Deixei algumas latas de soda na geladeira da cozinha. Por que no traz uma para mim e outra para sua tia?
- Estou indo!
O menino saiu como uma bala.
 - Sim,  perigoso  Doug respondeu sem rodeios.  No quero que saia sozinha  noite em hiptese alguma. Manterei sempre um homem vigiando a casa, mas se precisar sair por algum motivo, avise-me e irei com voc.
- No tem medo de prejudicar seu estilo?
Se est insinuando que posso arruinar minha vida social esquea. Ela no existe. No como est insinuando. E sua situao no  muito diferente da minha, a julgar pelo que ouvi de Jess.
- No tenho tempo para os homens.
 No precisa poupar meus sentimentos. Sei que causei algumas noites de insnia, mas esperou muito tempo para enfrentar o problema. E quanto mais esperar, mais difcil ser formar um relacionamento amoroso.
 Tenho de pensar em Jess e Stevie.
 Essa  a pior desculpa que j ouvi.
 Eb...
 Garanto que nunca mais ter de enfrentar os problemas que viveu comigo.
Ela desviou os olhos.
 Acha que Dallas e Jess j chegaram a alguma concluso?  perguntou, tentando mudar de assunto.
Eb aproximou-se e segurou-a pelos ombros, ignorando a tenso que a tomava de assalto.
- Agora voc  uma mulher adulta. Devia saber mais sobre os homens, mesmo que fosse atravs dos livros ou da tev. Naquele dia eu fiquei muito, muito excitado. Estava sozinho,  carente, e voc era apenas uma menina de dezessete anos. Entendeu o cenrio?
Pela primeira vez, a situao parecia clara. Por isso ela o encarou e assentiu.
 Devia tentar novamente. 
- Tentar o qu?
 O que fez naquela tarde. Use uma roupa sensual, escolha um perfume provocante e tente seduzir-me. Qualquer coisa  pode acontecer.
 No sou a mesma pessoa que era naquele dia  Sally respondeu com tristeza.  Mas voc no mudou.
Foi como se a luz se apagasse em seus olhos.
 Tambm mudei. Perdi o gosto pelo trabalho de comando h muito tempo. Hoje em dia ensino tticas... e isso  tudo que fao.
 No  um homem voltado para a famlia.
 Mais um engano. Tenho pensado muito nisso recentemente. Em uma casa cheia de filhos, em uma esposa carinhosa... Talvez tenha de desistir de alguns aspectos do meu trabalho, porque no quero meus filhos vivendo em uma casa repleta de armas, mas posso dar aulas tericas, redigir apostilas e treinar professores para o servio de inteligncia.
- Acha que ficaria satisfeito com isso?
 No sei. E no vou descobrir enquanto no tentar. Por outro lado, nenhum homem gosta da idia de amarrar-se.  preciso uma mulher determinada para convenc-lo.
Tinha a impresso de que Eb estava tentando dizer alguma coisa, mas antes que pudesse pedir uma explicao Stevie voltou com os refrigerantes e a conversa foi dada por encerrada.


Jess e Dallas estavam em silncio quando eles chegaram. Dallas segurava uma xcara de caf frio e parecia sombrio, e saiu sem dizer nada assim que os viu entrando.
- No preciso perguntar como foi a conversa  Doug comentou.
- Seria intil e inconveniente  Jssica respondeu com tom seco.
 Bem, preciso ir para casa. No h nada com que preocupar-se  disse, temendo ser explcito demais na frente garoto.  Tenho tudo sob controle. Sally j sabe que avisar sempre que tiver de sair  noite.
 Voc ser informado  ela respondeu. No queria pr em risco a vida da tia ou do primo com sua necessidade de independncia.
Manteremos as aulas trs vezes por semana. Quero chegar logo ao estgio dos golpes.
 Certo.
 E no se preocupe. Sei o que estou fazendo. Tudo vai acabar bem.
Ela forou um sorriso.
 Eu sei disso.
 At logo, Jees.
 Adeus, Doug.
Sally o acompanhou e, na varanda, ele fechou a porta encarou-a com ar srio.
A casa est vigiada  disse.  Mas precisa ter cuidado at mesmo com coisas normais, como abrir a porta para algum. Mantenha sempre a corrente de segurana at identificar visitante. E mantenha sempre portas e janelas trancadas, cortinas fechadas e uma rota de fuga em mente.
 Eb, nunca tive de lidar com essas coisas antes.
Ele a segurou pelos ombros.
 Eu sei, e lamento que voc e Stevie estejam correndo riscos por causa do trabalho de Jess. Mas sei que  capaz enfrentar o problema. Voc  forte. Far o que for necessrio.
A confiana que ele demonstrava em suas habilidades teve o poder de deix-la mais segura, e Sally sorriu.
Eb retribuiu o sorriso e tocou seu rosto.
 Se Stevie no fosse to imprevisvel, eu a beijaria  disse - No imagina quantas vezes sonhei com aquela tarde. Acordava suando, furioso comigo por ter sido to cruel. E a odiava pelo que podia fazer comigo. Dividia a culpa entre ns dois em partes iguais, mas jamais consegui esquecer o sabor de seus lbios.
Vermelha, ela manteve os olhos fixos em seu peito, como se temesse encar-lo.
Eb segurou seu queixo e a fez erguer a cabea.
- Nenhum outro homem jamais conhecer o sabor que provei naquele dia  murmurou.  O gosto delicado da inocncia...
 No foi o que voc disse naquela tarde.
- Naquela tarde, eu estava sofrendo tanto que no fui capaz de escolher as palavras. S queria que sasse da minha caminhonete antes que comeasse a despi-la.
Por alguma razo, jamais pensara que ele poderia t-la despido e conquistado acesso...
 Por que est com essa cara assustada?  ele riu.  Nunca pensou no que poderia ter acontecido quando investiu contra mim com toda aquela determinao?
Ela balanou a cabea.
 Algum devia ter lhe dito certas coisas.
 Voc disse.
- Sim, no dia seguinte. Tivemos uma conversa muito longa e explicita. Voc no queria me ouvir, mas eu praticamente a obriguei. Gostava de pensar que me esforcei para salv-la de uma experincia ainda pior.
 No foi exatamente uma experincia ruim. E esse era o problema...
Houve um longo silncio.
- Sally...
Ela o encarou e mal teve tempo de respirar antes de sentir a boca sobre a dela.
Perdida nas lembranas daquela tarde ergueu-se nas pontas dos ps para corresponder ao beijo. Um calor brotou de seu ventre e espalhou-se por todo o corpo, provocando uma forte tenso. Era como se todo seu ser houvesse esperado por aquele momento, por aquele homem, como se nunca pudesse pertencer a mais ningum.
Eb interrompeu o beijo para encar-la.
 Voc sabe to bem quanto eu que  s uma questo de tempo  murmurou. Sempre foi. E estou disposto a esperar...
Ela recuou embaraada, sem saber como agir.
- Agora tenho de ir. Lembre-se do que eu disse, especialmente sobre sadas noturnas.
- Eb, aonde eu iria sozinha  noite em uma cidade como Jacobsville?
Ele riu. Mas, enquanto o via descer a escada da varanda, Sally lembrou-se da reunio de pais e professores que aconteceria na escola. Teria tempo para inform-lo sobre a ocasio. Por enquanto, tudo que queria era entregar-se s deliciosas sensaes deixadas pelo beijo de Eb Scott.


CAPTULO IV

Jessica ficou deprimida depois da conversa com Dallas. At Stevie notou a mudana de humor. Sally preparou os pratos preferidos da tia e tentou anim-la, mas era intil.
Preocupada com a tia, ela esqueceu de avisar Eb sobre a reunio programada para a noite de tera-feira. Telefonou para o rancho dele, mas a mensagem na secretria eletrnica pedia apenas o nome e nmero do telefone de quem o procurasse. Ela deixou o recado, duvidando de que Doug o ouvisse antes que estivesse de volta s e salva. No acreditava realmente que toda a famlia corresse perigo, e relaxara ainda mais quando, com o passar do tempo, nada de extraordinrio acontecera. Alm do mais, que risco poderia correr durante o trajeto de trs quilmetros?
Sally mandou Stevie para casa com uma professora escola. Os assuntos previstos para a reunio eram demorados e explosivos, e ela encerrou o encontro mais tarde do que imaginava. No pensava em nada alm de um bom banho e algumas horas de sono enquanto dirigia pela estrada deserta, e ao passar pela casa dos vizinhos, ela experimentou um estranho arrepio. Trs deles estavam na varanda. A luz estava acesa, e parecia que eles discutiam. Ao v-la, todos ficaram quietos.
Sally pisou no acelerador, percebendo que chamara a ateno dos homens. Mais alguns minutos e estaria em casa...
O som de um pneu estourando interrompeu a reflexo. No tinha um estepe. Havia retirado o equipamento da carroceria para garantir espao para a rao do gado que comprara semana anterior e se esquecera de coloc-lo novamente. Teria de percorrer o restante do caminho a p. Estava escuro e os vizinhos observavam o veculo parado.
Bem, disse a si mesma enquanto saltava da cabine com a bolsa no ombro, eles no causariam problemas. Levava um apito num compartimento da bolsa e conhecia alguns truques defesa pessoal para proteger-se. Confiante, apesar de todos avisos de Eb, fechou o carro e comeou a caminhar.
O som de passos chamou sua ateno. Sally parou e olhou para trs. Dois dos trs vizinhos andavam em sua direo. Tinha de manter a calma. Precisava demonstrar confiana.
Sentindo as chances de defesa fsica diminurem drasticamente diante do porte avantajado dos supostos atacantes, retirou o o apito da bolsa e o apertou entre os dedos.
Ei, docinho  um deles chamou, o pneu furou? Podemos ajud-la a troc-lo.
O outro homem, um pouco mais alto, sujo e com a barba por fazer, sorriu com ar ameaador.
- Oh, sim, pode apostar nisso!
 Obrigada, mas no tenho um estepe
 Ento, ns a levaremos para casa  decidiu o mais alto.
- No, obrigada. Gosto de caminhar. Boa noite.
Virou-se para dar o primeiro passo, mas um deles saltou sobre ela, agarrou seu brao e encontrou o apito, enquanto o outro arrancava a bolsa de seu ombro e a vasculhava apressado.
Ele pegou o dinheiro, apenas uma nota, e abandonou o restante, inclusive o spray de auto-defesa.
- Dez dlares  resmungou, jogando a bolsa no cho enquanto guardava o dinheiro no bolso.  Pena que Lopez no nos pague melhor. De qualquer maneira, isto vai servir para comprarmos algumas cervejas.
- Solte-me!  Sally exigiu inflamada tentando atingir o homem que a segurava com o cotovelo.
O sujeito desviou-se do golpe e torceu seu brao com fora, causando uma dor forte o bastante para imobiliz-la.
- Nada mal   disse o outro.  Traga-a para fora da estrada. Depressa!
 Lopez no vai gostar disso  argumentou o terceiro homem, o que ficara na varanda e aproximava-se apressado.  Vo chamar a ateno das autoridades locais!
Um deles fez um comentrio rude. O terceiro desconhecido voltou  varanda, seus passos soando estranhamente altos no piso de madeira.
Sally estava apavorada, mas lutava como um animal acuado. Os esforos para libertar-se foram inteis. Os homens eram maiores e mais fortes que ela. No podia apitar ou usar o spray, e todos os chutes e socos que desferia eram evitados com agilidade espantosa. Tarde demais, lembrou-se dos conselhos de Eb sobre os perigos do excesso de confiana. Os agressores nem estavam bbados, e mesmo assim eram demais para ela.
Apavorada, foi arrastada para trs dos arbustos fora da estrada. Um som ecoou em sua mente, e a princpio ela pensou que fosse o preldio de um desmaio. Mas o som tornou-se mais alto e prximo, at que pde identific-lo. Era o motor de um automvel. Os faris iluminaram sua caminhonete, mas no alcanaram a cena de horror de que era integrante.
Foi como se o motorista soubesse o que acontecia sem ver. O automvel parou de repente e o motor foi desligado. Um homem alto saltou da caminhonete, agora podia v-la, e ps o chapu na cabea enquanto caminhava na direo dos arbustos. Os homens a soltaram e se voltaram para a nova ameaa. Eb!
 Problemas com o carro?  indagou uma voz profunda sarcstica.
Um deles sacou uma faca enquanto o outro aproximava do recm-chegado.
 No  da sua conta  respondeu o mais alto.  V embora
 De jeito nenhum.
 Vai se arrepender por ter ficado.
Horrorizada, Sally notava que o homem armado com a faca preparava-se para o ataque. Eb seria ferido, talvez morto, e a culpa seria dela. Por que no seguira seus conselhos. Por que no trocara o pneu e...
De repente Doug moveu-se com a velocidade de um relmpago. O homem com a faca caiu, gemendo e segurando o brao. O outro lanou-se para a frente e foi detido por um violento soco no estmago. Ele se levantou, tentou um novo ataque mas foi recebido por um chute que o deixou inconsciente.
Quando compreendeu o que estava acontecendo, Sally havia sido erguida do cho e era carregada para a caminhonete.
 Minha... bolsa  gaguejou assustada, tremendo que mal podia articular as palavras.
Ele a acomodou no banco antes de ir buscar a bolsa cada no cho.
- Eles pegaram alguma coisa?
 O mais alto... ficou com uma nota de dez dlares. Est no bolso...
Doug foi busc-la e, depois de devolv-la, sentou-se ao volante.
- Aqueles homens...
 Fique quieta, sim? Eles esto piores do que parecem.  E retirou um celular do bolso do casaco. - Bill? Doug Scott. Deixei dois assaltantes cados na Simmons Mill, perto da casa alugada dos Bell. Sim, exatamente.  E olhou para Sally.  Hoje no. Direi a ela que v procur-lo amanh cedo. Oh, no, nada srio. Alguns ossos quebrados, apenas. Mas acho melhor mandar uma ambulncia. Sim,  claro. Obrigado, Bill.  Ele desligou e guardou o aparelho no bolso.  Vou lev-la para casa. Depois mandarei um dos meus homens vir buscar a caminhonete. - Ouvindo os soluos aflitos, virou-se e s ento notou o medo, a humilhao e a tristeza no rosto molhado pelas lgrimas. O tecido da blusa havia sido rasgado e parte do suti de algodo estava visvel. Em silncio, removeu o casaco e a camisa que usava por cima da camiseta preta, ajeitando-a com habilidade espantosa sobre o corpo trmulo.
- Eu tinha... um apito... e lembrei o que voc disse sobre os movimentos de defesa...
 Sally, trenei um batalho de recrutas h pouco mais de cinco anos. Todos eram geis e bem preparados, e no havia um deles que eu no pudesse derrubar em menos de dez segundos. At mesmo um especialista em artes marciais pode perder um combate. Tudo depende do conhecimento do adversrio e da capacidade de manter a calma no momento do confronto. J vi instrutores de carat espantarem alunos muito avanados com um simples grito, um som rpido e sbito que paralisa.
- Aqueles homens... nem conseguira toc-lo!
Os olhos verdes revelavam uma frieza assustadora.
 Eu disse que devia trocar aquele pneu, Sally.
Ferida em seu orgulho, ela engoliu em seco.
 E eu disse que no cumpro ordens.
 No foi uma ordem. Foi um conselho, e voc acaba de comprovar o que pode acontecer quando teimamos em ignor-los. Felizmente teve o bom senso de deixar um recado na minha secretria eletrnica. Mas e se eu no houvesse escutado as mensagens? Consegue imaginar onde estaria agora? Quer que eu descreva a cena?
 Pare!
 No vou pedir desculpas. Voc cometeu uma estupidez e s escapou por sorte. Da prxima vez, a sorte pode estar do outro lado. Trate de consertar aquela droga de pneu e compre um telefone celular.
 No tenho dinheiro para isso.
 Precisa garantir sua segurana, e um celular deve ser equipamento bsico na bolsa de qualquer mulher. Entenda uma coisa, Sally: a menos que se submeta a anos de treinamento, como as agentes federais, por exemplo, jamais conseguir superar a fora de um homem. E de onde tirou a idia de usar aquela lata de spray?
 Naquele curso de defesa pessoal para mulheres transmitido pela televiso.
- Sally, tudo que for lanado em spray, seja uma soluo qumica ou apenas pimenta, pode respingar em voc. Se o vento soprar em sentido contrrio, pode ficar cega. E se no atingir o atacante nos olhos, o esforo ser intil. Quanto ao apito esta noite no havia ningum por perto para ouvi-lo. Eu no disse que devia correr? Fuja! Nunca enfrente um atacante Pelo amor de Deus, no gosto nem de pensar no que poderia ter acontecido se...
 Tem razo, a culpa foi minha. No vou repetir o mesmo erro, Doug, pode estar certo disso. Ao menos consegui escapar ilesa. Isto , com exceo do meu orgulho.
Estavam chegando na casa de Sally, e Eb percebe que algum abria uma cortina na sala.
Mandei Dallas Kirk para c assim que recebi seu recado  ele explicou.  Algum tinha de cuidar de Jess e Stevie. Devia ter me avisado sobre a reunio com os pais dos alunos
 Eu sei.  Era difcil conter as lgrimas. A experincia havia sido um choque que jamais poderia superar.  Havia um terceiro homem na varanda da casa. Ele disse que Lopez no gostaria daquilo, porque estavam atraindo muita ateno.
Eb olhou para a janela. As cortinas estavam fechadas novamente, e ele respirou fundo antes de abra-la. Aninhando o rosto assustado em seu ombro, deixou-a chorar. 
 Estou to furiosa!  Ela soluava, cerrando os punhos sobre seu peito como se temesse perder o controle.  Eles me tratavam como se eu fosse uma... uma boneca!
 Acalme-se, docinho. Voc foi corajosa, embora tenha errado. E todo mundo pode perder uma briga.
 Aposto que nunca perdeu uma luta.
 Levei uma surra inesquecvel de um sujeito que tinha a metade do meu tamanho. Ele era mestre de hapkido e me deu uma lio muito valiosa sobre excesso de confiana.
Sally respirou fundo. Depois sorriu e encarou-o.
 Existe um ditado muito antigo que diz que, quando algum salva uma vida, torna-se dono dela. Voc me salvou. Agora sou sua.
 Agora?
 Sempre fui, Doug. Nunca houve mais ningum.
 Essa histria podia ter sido drasticamente alterada naquela estrada. Felizmente cheguei a tempo. Por favor, confie em mim e faa tudo que eu disser. No quero que se machuque, entendeu? Farei tudo que precisar para proteg-la, e isso inclui escolher algum para segui-la durante todo o tempo se for necessrio. Pense no que o diretor da escola pensaria disso.
-Prometo que no cometerei mais nenhuma estupidez. 
- O que acha disso?  ele apontou para a blusa rasgada sob a camisa aberta. Os seios rgidos e arredondados podiam ser vistos com perfeio alm da frgil barreira de algodo.
- Se no gosta do que v, cubra-me  ela o desafiou.
Eb riu. A mulher vivia para surpreend-lo.
Talvez seja melhor  respondeu, unindo as duas partes da camisa. - Dallas est na janela desfrutando de uma verdadeira aula.
- E ele precisa de um pouco de instruo.
 Ento somos dois. Vai ficar bem?
Sim.  Sally hesitou com a mo na maaneta.  Doug,  sempre assim?
 O qu?
A violncia fsica. Existe um estgio em que o ser humano se habitua a ela, em que deixa de se sentir enojado ou revoltado?
 Se existe, ainda no o atingi. Lembro-me de cada rosto, de cada minuto do que fiz em minha vida. Bem,  melhor entrar. Virei buscar voc e Stevie na quinta-feira e no sbado para mais algumas sesses de treinamento.
 No acha que vai perder tempo? At agora, suas lies foram inteis para mim. 
 No pense nisso. Voc foi dominada por uma fora superior a sua. Acontece... No h vergonha alguma em perder uma luta depois de ter se esforado para venc-la.
Ela sorriu.
 Voc acha?
 Eu sei. s vezes a vida nos presenteia com uma segunda chance.
- Ser?  sussurrou, lembrando uma certa tarde primavera.
Eb tocou sua boca com delicadeza.
. Tente no pensar no que aconteceu esta noite. No vou deixar ningum machuc-la. E quando terminarmos nosso curso rpido de defesa pessoal, vai estar destroando homens maus usando apenas uma das mos! Afinal, ainda uma principiante.
- E voc no.
-  verdade. E no me refiro apenas  defesa pessoal. Agora v.
 Obrigada por tudo. Prometo devolver sua camisa.
 Ficou to bem em voc, que acho melhor guard-la.
 Doug, vou ter de falar com o xerife?
- Pode apostar nisso. Irei busc-la depois da aula. No preocupe. Ele  um homem muito gentil. Precisa tomar uma atitude para impedir que os homens de Lopez escapem ilesos.
- O que ele vai fazer quando souber que depus contra seus homens?
 Este  um problema meu. Ningum vai encostar um dedo em voc sem passar por mim.
Sally sentiu o corao bater mais depressa. Era uma mulher moderna! No devia deixar impressionar por comentrio desse tipo. Mas estava impressionada. Doug era um homem forte e confiante que no se contentaria com uma mulher diferente dele. No havia sido essa mulher aos dezessete anos de idade. Mas agora era. E saber disso a enchia de orgulho.
 Qual  o problema? Acha que uma mulher moderna no deve aceitar proteo?  ele a provocou.
- Voc mesmo disse que ningum  invencvel. No creio que seja imprprio admirar um homem forte, especialmente se esse homem acabou de salvar minha vida.
 Esquea tudo isso.
 Vou tentar. Eles no viro atrs de mim?
 Na condio em que esto? No. E tiveram sorte. H dez anos, eu no teria sido to generoso. J conhece a verdade. Levei uma vida violenta e incerta, e parte desse homem ainda existe em mim, apesar de ter abandonado o trabalho de campo. Tenho de superar esse perodo antes de comear uma nova vida, e isso leva algum tempo.
 O que est tentando dizer?
 Quero que esteja consciente de minhas intenes.
 Intenes?
 Na ltima vez eu parei. Na prxima, no vou parar. Sonho com voc, Sally, e desta vez no vai conseguir escapar.
 Pretende agir sozinho, ou vai convocar o exrcito?
 No preciso de um exrcito. Mas voc...  Eb sorriu.  Agora entre. A casa est vigiada. Durma tranqila e esteja certa de que no corre nenhum perigo.
- Obrigada, Doug
Por nada durma bem
 Voc tambm
Eb a viu entrar e esperou por Dallas, que saiu em silncio e entrou na caminhonete com ar carrancudo.
 O que aconteceu?  indagou, deixando a bengala no cho.
Os homens de Lopez a atacaram na estrada. Um dos pneus do carro estourou e eles a encurralaram. No sei s foi premeditado. Eles podem ter planejado tudo. O pneu estava careca, mas teria suportado mais algumas centenas de quilmetros.
- Ela parecia bastante perturbada.
- E com razo. Teria sido violentada, se eu no houvesse aparecido a tempo.  Doug ligou o motor e partiu.  Quer dar uma olhada naqueles sujeitos, caso a ambulncia ainda no os tenha recolhido.
Pediu urna ambulncia?  Dallas perguntou com espanto debochado.  Essa  nova!
 Estamos tentando nos adaptar, no? No posso deixar dois homens morrerem na beira de uma estrada.
 Se voc diz...
A caminhonete de Sally continuava no mesmo lugar, ma os dois homens haviam desaparecido. A casa estava escura e no havia uma alma por perto.
Enquanto Eb analisava o cenrio, as luzes vermelhas de uma ambulncia cortaram a escurido e o automvel branco parou atrs deles. O carro da polcia local chegou segundo mais tarde transportando o ajudante do xerife.
Doug desligou o motor e desceu. Conhecia Rich Burton, um dos mais competentes policiais daquela regio. Eles trocaram um aperto de mo.
 Onde esto as vitimas?  Quis saber Rich.
 Estavam cados aqui quando levei Sally para casa.
 Bem, a menos que algum precise de ajuda, acho melhor irmos embora  anunciou um dos paramdicos.
-  estranho. Sou capaz de jurar que um dos atacante da moa tinha o nariz fraturado - Doug refletiu em voz alta.
 Mas as pernas estavam inteiras, pelo que vemos aqui  respondeu o paramdico.
 Tem razo.
A ambulncia partiu e o ajudante do xerife juntou-se a Eb e Dallas ao lado da caminhonete.
 Algo est acontecendo naquela casa  Rich opinou em voz baixa.  Fui parado por estranhos a caminho daqui, e eles me contaram que testemunharam atividades suspeitas. Homens entrando e saindo carregando caixas. E no  s isso. Uma companhia de grande porte comprou o terreno vizinho  casa de Cy Parks e est enchendo o lugar com material de construo. Um empreiteiro foi contratado e a secretaria de planejamento urbano recebeu o projeto de uma obra comercial naquele local.
- O que sabe sobre os homens que moram aqui? 
- Menos do que gostaria. Mas meus contatos me informaram sobre um certo baro das drogas chamado Manuel Lopez, e existem rumores sobre uma suposta ligao entre ele e os moradores da casa. So mulas. Transportam as drogas para o chefo.
Doug e Dallas trocaram um olhar silencioso.
 Que tipo de obra  essa que mencionou h pouco? - Eb perguntou.
 No sei. H um imenso depsito de ao sendo erguido atrs da casa de Parks  Rich respondeu com ar preocupado. - Se quer minha opinio, e quero deixar claro que  s um palpite acho que estamos diante de uma operao de distribuio.


CAPTULO V

- Um centro de distribuio  Doug repetiu  Com Manuel Lopez, o chefe do mais violento cartel internacional de drogas, por trs dele! Era tudo de que precisvamos em Jacobsville.
 Tem razo  concordou o policial.  Como sabe sobre Lopez?
Doug no respondeu.
 - Obrigado, Rich. Se souber alguma coisa sobre os homens que atacaram a srta. Johnson, ligarei para voc.
- Obrigado. Mas aposto que eles j deixaram a cidade. Seria loucura ficar e enfrentar um processo por tentativa de estupro em uma comunidade to pequena. Lopez odiaria a notoriedade.
  o que penso. Ate qualquer dia.
Assim que Rich Burton partiu, Eb vasculhou a rea e encontrou uma tbua com pregos colocados em pontos estratgicos. Havia uma corda amarrada em uma das extremidades, sinal de que o aparato fora colocado na estrada e puxado depois de Sally t-lo atingido com o automvel. Isso significava que havia um quarto envolvido na trama, alm dos dois que a atacaram e do outro que ficara na varanda. A concluso o perturbava.
 Foi uma armadilha  Dallas compreendeu.
 Exatamente.  Doug jogou a tbua na carroceria da caminhonete antes de sentar-se ao volante.  Foram pelo menos quatro homens, e no creio que assalto tenha sido o nico objetivo do plano. Amanha cedo irei ter uma conversa com Cy Parks. Talvez ele saiba alguma coisa sobre a obra atrs de sua casa.
Cy Parks estava mal humorado. No conseguira dormir na noite anterior, e sentia-se sonolento. Mesmo depois de quatro anos, ainda tinha pesadelos envolvendo a morte da esposa e do filho de cinco anos no incndio de sua casa em Wyoming,
Mudara-se para Jacobsville, onde vivia Eb Scott, mais para ter algum com quem conversar do que por qualquer outra razo. Doug no s havia sido um grande companheiro no exrcito, como tambm era o nico homem que conhecia capaz de ouvir o relato tenebroso sem passar mal. Era bom ter algum com quem conversar.
Estava comeando a segunda xcara de caf quando ouviu as batidas na porta. Devia ser o capataz. Harley Fowler era um apaixonado por aventuras que gostava de pensar em si mesmo como um possvel mercenrio. Ele estava sempre lendo alguma coisa sobre o tema, geralmente revistas em quadrinhos, e certa vez respondera a um anncio solicitando voluntrios e, supostamente, cumprira uma misso durante suas frias de vero. Voltara das frias com duas semana de atraso gabando-se das exploraes que realizara no exterior com um grupo de lunticos, enchendo a cabea dos pees do rancho com suas histrias. Harley transformara-se numa espcie de heri instantneo para os rapazes. Cy observava com cinismo bem humorado. Nenhum homem envolvido em misses semelhantes voltava para casa relatando seus feitos ou demonstrando satisfao. Havia algo de diferente em um homem que presenciara um combate. Algo inconfundvel para algum que conhecia o sentimento. E Harley no tinha essa caracterstica.
Nenhum dos pees sabia que Cy Parks nem sempre fora um rancheiro. Sabiam sobre o incndio que matara sua famlia, como a maioria dos habitantes da cidade, mas no imaginavam que era um ex-mercenrio e que Lopez causara o incndio, embora indiretamente. Cy preferia manter o segredo. Encerrara esse captulo de sua vida.
Intrigado, foi abrir a porta e descobriu que no era Harley quem o procurava, mas Eb Scott.
- Est perdido?  perguntou com o sarcasmo habitual. 
Doug riu.
 H anos. Tem mais caf?
 Certamente.
Cy serviu o caf em uma xcara e convidou o amigo a sentar-se  mesa.
 O que veio fazer aqui?
 Manteve contato com algum de seus antigos informantes quando abandonou a carreira?
 Para qu? Como voc mesmo disse, eu abandonei tudo.
Doug bebeu um pouco do caf forte e quente antes de revelar:
 Manuel Lopez est solto. E acreditamos que ele esteja por aqui. Alguns de seus homens andaram criando problemas.
 Tem certeza? 
 Absoluta.
 O que ele veio fazer aqui?
 Jssica Myers tambm se mudou para c. Est vivendo com o filho e a sobrinha, Sally, na velha casa dos Johnson. Ela conseguiu informaes valiosas atravs de um dos homens de Lopez e usou o relato para pr o baro das drogas na cadeia. O informante no foi identificado, e por isso entregou dados referentes a documentos e contas bancrias que comprovavam sua atividade ilegal. Agora Lopez est solto e atrs de Jess. Ele quer o nome do homem que o traiu.
 Lutar em campo aberto no  o estilo de Lopez.  Cy Parks mostrava um rosto duro e implacvel, um resqucio dos velhos tempos.  Ele  o tipo de homem que prefere apunhalar pelas costas.
 Eu sei, e  isso que me preocupa. Trs, talvez quatro de seus jagunos esto vivendo em uma casa alugada vizinha  de Sally. Dois deles a atacaram ontem  noite quando um pneu de sua caminhonete estourou. E no foi um acidente. Os tais homens a observavam, pois sabiam onde ela estava e quando passaria pela estrada. Na verdade, acredito que existam mais de quatro homens de Lopez nesta regio. E acho que dispem do mesmo equipamento de vigilncia que tenho no rancho. O que no sei  por qu. Talvez haja mais alguma coisa por trs disso tudo do que o desejo de Lopez de encontrar Jssica.
 Sally est bem?
 Felizmente, cheguei ao local a tempo de impedir o trgico desfecho. Quebrei alguns ossos dos bandidos, mas eles escaparam, e agora a casa parece estar vazia. Temporariamente,  claro. Notou alguma atividade ao norte do rancho?
 Na verdade, notei. Diversos veculos entram e saem de um terreno vizinho. Eles fecharam cerca de um acre e esto construindo um galpo. O secretrio de planejamento disse que o lugar ser um centro de produo e distribuio de apicultores. Eles j conseguiram at a autorizao para construir um edifcio.  estranho... Matt Caldwell tem enfrentado problemas com a secretaria para pr em prtica um projeto muito antigo, mas esse grupo conseguiu o que queria sem demora.
- Apicultores... Mel?
 E isso no  tudo. Investiguei a companhia que comprou o terreno vizinho ao meu. E no pertence a ningum da regio, e no consigo descobrir quem  o proprietrio. A base da empresa est sediada em Cancun, no Mxico.
 Cancun? Ei, isso  interessante. O ltimo relatrio que recebi sobre Lopez antes da priso dizia que ele havia comprado propriedade por l e vivia como um rei em um palacete nos arredores de Cancun.
 Lopez! Por que ele estaria envolvido em um negcio apicultores?
  evidente que a tal empresa servir de fachada par alguma operao ilegal. Ele pode ter escolhido Jacobsville como centro de distribuio para seu produto por ser uma cidade pequena, isolada, e por no haver nenhuma agncia federal nesta regio.
Cy levantou-se furioso.
 Ele matou minha esposa e meu filho!
 E quase matou Jssica quando a jogou para fora da estrada. E sobreviveu, mas ficou cega. Veio para c por acreditar que eu poderia proteg-la mas no posso fazer muito sozinho. Preciso de ajuda. Quero instalar um posto de escuta em um ponto estratgico de sua propriedade e colocar um dos meus homens l.
- Faa o que quiser. Mas antes tenho de comprar alguns equipamentos. Explosivos, minas...
Doug precisou de alguns instantes para compreender as palavras e a postura de Cy. Tivera a oportunidade de v-lo daquele jeito antes, nas misses que desempenharam juntos, e seria capaz de jurar que teria se mostrado da mesma maneira logo depois da morte de sua famlia, quando fora hospitalizado com severas queimaduras no brao, ferimentos que sofrera ao tentar salvar a esposa e o filho do incndio que destrura sua casa.
Na poca Parks no soubera que Lopez havia ordenado o incndio. Mesmo na priso, ele fora capaz de acionar seus contatos para obter o que queria.
 No pode comear a espalhar minas pelo rancho. Tem de usar a cabea. Se quer pegar Lopez, precisamos agir dentro da lei.
 Ah essa  boa! Vindo de voc...  Parks apontou com sarcasmo.
 Eu mudei. Quero mudar de vida, mas antes tenho de acabar com Lopez. E preciso de voc.
Cy estendeu a mo marcada por cicatrizes. Ao v-las, puxou a manga para escond-las.
 Sei que tem marcas deixadas pelo fogo. Caso tenha esquecido, todos ns fomos v-lo no hospital.
Cy abaixou a cabea.
 No me lembro muito bem daqueles dias. Sei que fui bem atendido, ou no teria meu brao, mas j no sou to gil quanto antes.
 Bobagem. Voc muito melhor do que antes, ou no teria sado do ostracismo por causa de um bando de adolescentes problemticos.
Sabia a que Doug estava se referindo. Belinda Jessup, uma defensora publica, comprara um pequeno terreno ao lado do rancho montar um acampamento de vero para jovens infratores em liberdade condicional. Um dos garotos, um afro-americano que havia se apaixonado pela criao de gado, conseguira despert-lo para a vida. Entrara em contato com Luke Craig, outro  vizinho para convenc-lo a empregar o rapaz. Atualmente ele trabalhava no rancho de Craig e era supervisor dos pees. Nunca mais enfrentara problemas com a lei. Estava prestes a se tornar capataz, e Cy sentia-se orgulhoso por t-lo ajudado.
 Mesmo que possamos mandar Lopez de volta  priso, isso no o impedira de indicar algum para comandar seu imprio. Sabe como esses grupos so organizados, Doug. So compostos por clulas de dez ou mais homens com chefes que se reportam ao gerente regional, que por sua vez obedece a um comando superior. Hoje em dia, os cartis possuem estruturas de empresas.
Sim, eu sei, e tambm tm todo o equipamento necessrio. Pagers, celulares, faxes... Eles usam a tecnologia a seu favor, so eficientes e impiedosos. Matam famlias inteiras, se julgarem necessrio. Por isso os subordinados jamais os desafiam. Mas um desses soldados do trfico traiu a confiana do baro e Jssica conhece seu nome. Lopez no vai desistir. Nunca.
 Nem eu. Mas o que faremos quanto  operao planejada desse bandido?	
- Ainda no tenho um plano. Legalmente, no podemos fazer nada sem evidncias incontestveis. E desta vez Lopez tomar todo o cuidado para cobrir suas pistas, para no ter seu nome ligado a uma operao envolvendo drogas. Pelo que pude descobrir, ele nem vem  cidade, justamente para evitar essa ligao. O homem no vai correr o risco de ser extraditado do Mxico. A nica maneira de lev-lo de volta  priso  atra-lo  at aqui e coloc-lo nas mos dos federais. Lopez  o nmero um da lista de procurados pela lei. Se conseguirmos instalar uma escuta legal nos telefones daquele depsito assim que a operao foi iniciada, talvez tenhamos algo para levar s autoridades. Conheo um agente que pode nos ajudar. Na verdade ele e a esposa so seus vizinhos. Ele  muito competente e j atuou em misses sigilosas antes.	
 A maioria do grupo de Lopez  composta por hispnicos.
 Esse homem de quem estou falando pode passar por hispnico. O pai de sua esposa deixou para ela um pequeno rancho...
 Lisa Monroe  Cy concluiu, desviando os olhos.  Sim j a vi por aqui. Ontem mesmo ela estava levando fardos de feno para o cavalo.  to magra! No devia fazer um servio to pesado.
- Se o marido no est em casa para cuidar do rancho.
 O qu? Ele estava a dez metros dela, conversando com uma loura de pernas longas e seios fartos num uniforme de uma lanchonete que faz entregas em domiclio! O homem no parecia notar a presena de Lisa!
 Isso no  da nossa conta,
 Certo, j entendi. O que acha de irmos at a fronteira do rancho para darmos uma olhada no tal depsito? Podemos fingir que estamos apenas cavalgando...
Doug foi buscar os potentes binculos na caminhonete, e quando chegaram ao estbulo, o capataz j havia preparado dois cavalos.
 Sr. Scott!  Harley cumprimentou-o com um sorriso entusiasmado.    bom v-lo, senhor!  Sabia sobre a operao comandada por Eb Scott. Lera tudo sobre o assunto nas revistas especializadas e na publicao sigilosa e exclusiva de que era assinante.
Doug o encarou com ar srio.
 Eu o conheo, rapaz?
 Oh, no, senhor! Mas li muito sobre o seu trabalho.
 Posso imaginar o que andou lendo  ele riu.
 Harley, vamos verificar as cercas ao norte do rancho  Cy avisou.  Diga a Jenkin para comear a trabalhar no novo porto assim que terminar o caf.
Ele ainda precisa ir busc-lo no depsito de ferramentas. O porto foi entregue muito tarde e ns achamos melhor guard-lo no galpo.
Cy o encarou com um olhar que teria congelado gua corrente. Ele no disse nada, mas no foi necessrio.
 Darei seu recado  Harley respondeu antes de correr para o alojamento.
 Quem  ele?  Doug quis saber assim que partiram.
 Meu novo capataz. Ele  um verdadeiro mercenrio, sabe? Esteve em uma misso no incio do vero  debochou Cy.
 Meu Deus! Um heri de carne e osso no meio dos pees!
 E que heri! Aposto que ele passou duas semanas em um acampamento de turistas, ajudando a proteger crianas e velhos contra ursos e insetos venenosos.
- Lembra-se de como ramos na idade dele? Mal podamos esperar para exibirmos nosso equipamento.  Mais tarde descobrimos que os verdadeiros mercenrios odeiam a publicidade.
 ramos como Harley. Exibidos e mentirosos.
 E vaidosos. Vivamos sorrindo. Puxa, passei anos sem dar um nico sorriso depois que deixei o grupo. No h nada de romntico naquele trabalho, e por melhor que seja a remunerao nunca nos sentimos realmente recompensados pelo que fizemos.
  verdade. Mas tem de admitir que demos nossa contribuio ao mundo.
 Sim, acho que sim. Nosso melhor trabalho foi estourar uma fazenda de processamento de cocana na Amrica Central e mandar Lopez para a priso. E agora ele est de volta, como um personagem de filme de terror.
 Conheci o pai dele  Cy revelou.  Era um homem bom, honesto e generoso que trabalhava como zelador em Victoria e estudava em casa todas as noites tentando melhorar. Ele morreu logo depois de descobrir o que o nico filho fazia para viver.
-  impossvel saber que destino tero os filhos...
 Sei que o meu teria sido um homem brilhante.
 Juro que vamos pr as mos em Lopez. Nem que tenha de convocar mercenrios de todas as partes do mundo, vamos peg-lo.
Cy respirou fundo e olhou para o companheiro.
 Se o pegarmos, s quero ter cinco minutos a ss com ele.
 Esquea. Sei muito bem o que pode fazer em cinco minutos, e quero que o homem seja julgado adequadamente.
 Ele j foi.
 Sim, mas no leste, onde as leis so mais brandas. Desta vez poremos as mos nele aqui no Texas. Encontraremos o melhor promotor do oeste e o colocaremos no caso. Os irmos  Hart tm um escritrio de advocacia. O irmo mais velho  o melhor promotor que j  conheci.
 Havia me esquecido deles. Bem, creio que posso dar uma segunda chance aos tribunais. Afinal, eles no tm culpa por Lopez ter dinheiro para contratar advogados de defesa que coleciona ternos Armani.
  verdade. E se pudermos peg-lo com uma boa quantia de dinheiro lavado nos bolsos, financiaremos melhorias considerveis para o pessoal da Narcticos.
Estavam chegando a fronteira norte do rancho de Parks. Alm da cerca, distante, havia um enorme canteiro de obra. De onde estavam, ocultos pelas rvores prximas de uma nascente, podiam estudar toda a rea com o auxlio do binculo. Dong foi o primeiro a usar o equipamento, e depois entregou a Cy, que tambm estudou todo o rancho vizinho antes de devolv-lo.
 Reconheceu algum?  Parks perguntou.
Doug balanou a cabea.
  melhor irmos conversar com Bill Elliott na central de polcia.
 Se quer chegar a algum lugar, v falar com o xerife sozinho. Eu s o prejudicaria.
- Agora me lembro. Andou discutindo com o xerife por causa do acampamento de Belinda Jessup.
 Foi uma discusso violenta. Felizmente me tornei mais brando depois dela.
 Voc e a KGB. Vamos, temos de sair daqui antes que eles nos vejam.

Naquela tarde, Eb foi ate a casa dos Johnson buscar Sally e Stevie para a aula de defesa pessoal.
Os olhos de Sally iluminaram-se ao v-lo, despertando nele uma intensa alegria e a sensao de finalmente pertencer a algum lugar. Stevie passou pela prima para atirar-se nos braos do amigo.
- Como vai Jess?
Sally fez uma careta e olhou para trs, na direo da porta
 Dallas esteve aqui h pouco. Os dois parecem estar travando um combate de morte. Acredita que nem se falam?
- Tudo vai melhorar com o tempo.
Estavam partindo quando Sally o surpreendeu com uma pergunta:
O que sabe sobre equipamentos de segurana e vigilncia? 
Eb suspirou com exagero.
- Com o passado que tenho, o que acha que sei?
 Muito. Um microfone pode realmente captar vozes no interior da casa? Jess tentou convencer-me de que podemos ser ouvidas atravs das paredes, e por isso temos de tomar muito cuidado com o que dizemos. Mencionou aquele homem de Lopez e ela me fez calar imediatamente.
 Voc tem muito a aprender. E suponho que este seja um bom momento para comear.
Minutos mais tarde chegavam ao rancho Scott. Eb deixou Stevie sentado  mesa da cozinha com Carl, seu cozinheiro, que serviu uma generosa poro de sorvete para a criana enquanto Sally era conduzida por um corredor para uma sala repleta de  equipamentos eletrnicos.
Ele a fez sentar-se em uma cadeira e ligou a cmera do circuito interno. Dois pees trabalhavam com o gado em uma parte distante do rancho.
Depois ele acionou um interruptor, e Sally ouviu um caubi resmungando sobre a fragilidade das ferramentas modernas.
No estavam nem conversando muito alto, e se havia um microfone, devia estar instalado na parede do celeiro, do lado de fora. Sally olhou para Eb com ar incrdulo e assustado.
Ele tocou o interruptor e o equipamento ficou silencioso
 Um aparato moderno pode captar sussurros muito distantes.  Ele apontou para uma prateleira repleta de binculos estranhos.  Viso noturna. Posso ver qualquer coisa numa noite sem luar como auxilio deles, e tenho outros que detecta alteraes no padro de calor.
 Est brincando
- Temos cmeras escondidas em livros e maos de cigarros, armas que podem ser dobradas e transportadas em botas, sem mencionar... isto.  Eb tocou o relgio, aparentemente normal, e uma lmina de aparncia assustadora saltou da pulseira.
Oh!
 Ainda no havia pensado em tudo que soube a meu respeito, no , Sally?
Ela balanou a cabea.
 Vivi momentos perigosos em locais perigosos. H poucos anos parei de olhar para trs e sentar-me com as costas voltadas para a parede.  E tocou seu rosto.  Os homens Lopez podem ouvi-la atravs de uma parede com a televiso ligada. Nunca se esquea disso. No diga nada que no possa ser registrado para a posteridade.
- Esse homem  muito perigoso, no?
 O pior que conheo. Lopez contrata assassinos. No tem compaixo, nem misericrdia, e  capaz de qualquer coisa por dinheiro. Se um de seus homens no o houvesse trado, jamais teria sido preso neste pais. Foi um golpe de sorte.
 E ele no pode ouvir o que dizemos aqui?
Eb sorriu.
 De jeito nenhum.
- Tenho a sensao de ter entrado num filme. Guerra nas Estrelas
 Falando em filmes, o que acha de levarmos Stevie para assistir a um lanamento no prximo sbado? Fico cientfica  claro.
- Doug, que idia maravilhosa!
Melhor ainda era pensar em passar duas horas sentado ao lado dela numa sala escura.



CAPTULO VI

Sally seguia para as aulas de auto-defesa com entusiasmo cada vez maior. Estavam progredindo depressa, e o contato fsico com Eb tambm era um incentivo valioso.
- Dallas era um de seus homens quando voc atuava com os mercenrios, no?  ela perguntou a Eb no intervalo de uma aula.
- Dallas, Cy Parks e o irmo de Cailie Kirby, Michael Steele, entre outros.
 O qu? Cy Parks era um mercenrio?
 No percebeu que ele tem dificuldades para interagir com outras pessoas?
  difcil no notar. Mas nas condies em que est...
 Essa  uma das razes pelas quais ele no atua mais. Cy fez parte do grupo que ajudou na captura de Lopez h pouco mais de dois anos, como eu. Foi quando Jess o prendeu. Mas o bandido apelou da sentena e s foi preso seis meses depois. Como sabe, j est solto.
- Dois anos... Foi nessa poca que Cy chegou em Jacobsville.
 Sim. Depois de alguns homens de Lopez terem incendiado sua casa em Wyoming. A inteno era matar os trs, no s a esposa e o filho de Cy. Mas ele no estava dormindo, como presumiram os atacantes, e conseguiu sair.
 Por que Lopez queimaria sua casa?
 Porque ele nunca perdoa as pessoas que o desafiam. E no se contenta em destruir apenas o responsvel. Prefere destruir toda a famlia, se puder. No entanto, Lopez normalmente poupa as crianas; sua nica virtude.
 Nunca imaginei que pessoas como ele existissem de verdade.
 Gostaria de poder dizer o mesmo. Mas no vivemos em um mundo perfeito, e por isso quero que aprenda a defender-se
 Creio ter vivido em um mundo de fantasia.  imagem que tinha de voc por exemplo, era falsa.
- E eu vivia um pesadelo. Naquele inesquecvel dia de primavera, ha seis anos, eu retornava de um massacre na frica. Havia tentado ajudar o governo a dominar um pequeno grupo de rebeldes comandado por um general comunista. Perdi a maior parte do meu grupo, inclusive alguns amigos e o edifico da presidncia foi explodido com o chefe da nao dentro dele. Foi um momento terrvel.
Para sua surpresa, Sally mencionou o nome do pas em questo.
 Estvamos estudando o assunto no curso de cincias polticas  ela explicou.  No sabia o que voc fazia para viver, ou que estava envolvido na luta sangrenta. Mas todos ns acreditvamos que aquela era uma resistncia idealista.
- Idealista... e cara, como muitos ideais que tentamos por em prtica. Depois disso, passei a concentrar-me em tticas estratgias. A guerra no  nobre. Apenas a resoluo do conflito merece ser elogiada.
Lembrava-se das cicatrizes que vira no rosto bronzeado naquele dia, marcas que atribura ao trabalho no rancho.
 Eu sinto muito - murmurou.
Eb tocou seu queixo. O contato, embora simples, fez seu corao bater mais depressa. No era tanto o gesto, mas o olhar, uma inconfundvel demonstrao de desejo que a incendiava.
Num movimento involuntrio, recuou um passo e olhou para trs, para onde Stevie continuava praticando quedas e golpes de defesa.
 No me esqueci dele  Doug anunciou. Numa noite dessas vamos sair para jantar. Dallas ficar cuidando de Jess e do garoto enquanto estivermos fora. E no se preocupe. J disse que tenho tudo sob controle.
- Espero que sim. O sr. Parks sabe que Lopez saiu da priso?
 Sim, e  com ele que me preocupo. Cy nunca foi muito paciente. Ele e a esposa no eram um modelo de casal perfeito, mas ele adorava o filho. E no ter paz enquanto Lopez no for pego. E se ele o encontrar primeiro, poderemos esquecer o julgamento.  Doug respirou fundo.  No  sensato agir  impelido pelo dio. A raiva prejudica a razo e pode levar um homem  morte.
  No pode culp-lo pelo que sente. Pobre homem
 No tenha piedade de Parks. Mesmo depois de tudo por que passou, ainda  um homem extraordinrio e capaz de faanhas incrveis.
 E muito atraente.
- E fora do seu alcance. Nem pense em aproximar-se dele.
 O qu? Eb Scott, no sou propriedade de ningum! 
-Mesmo assim, trate de concentrar-se apenas em mim.  E segurou as mos dela.
Sally notou o anel de ouro e nix em sua mo direita. Havia uma letra S formada por pequenos diamantes no centro de um braso.
  uma linda jia.
- Era de meu pai. O homem era um soldado e tanto, mesmo que no tenha sido o melhor pai do mundo.
- Sente falta dele?
 Acho que sim, de vez em quando. Este anel ser de meu filho, se algum dia o tiver.
Pensar em ter filhos com Eb provocou uma forte emoo, mas ela no disse nada. Doug parecia prestes a dizer alguma coisa, quando foram interrompidos.
 Ei, Sally, veja o que posso fazer!  Stevie gritou, executando um chute perfeito contra o saco de areia.
 Muito bom!  Eb elogiou-o.  Est aprendendo depressa, mocinho.
 timo! Preciso me apressar.
 Por qu?
 Para dar uma surra naquele homem grande e louro que faz minha me chorar.
- Refere-se a Dallas?  Sally perguntou.
 Ele mesmo. Ontem  noite minha me estava chorando, e quando perguntei por que, ela disse que o sujeito a odeia.
- Sua me e Dallas se conheceram h muito tempo  Eb explicou srio.  Eles brigaram e nunca mais se entenderam. Por isso ela estava chorando. Os dois so excelentes pessoas, mas s vezes at os melhores seres humanos se desentendem.
- Por que esto sempre to zangados um com o outro?
 No sei. S eles podem explicar, se quiserem. Mas deve ter em mente que Dallas  um bom homem.
 Ele manca.
 Porque foi atingido por tiros.
 Tiros?  Os olhos de Stevie se iluminaram  Quem atirou nele?
 Alguns homens muito maus. Ele quase morreu. Por isso usa uma bengala para andar e tem tantas cicatrizes pelo corpo.
- Aquele homem no gosta de minha me. Ele vive fazendo caretas para ela. Mame no pode v-las, mas eu posso.
 Dallas jamais far mal algum a sua me. Ele est l para proteg-la quando voc tem de sair.
 Sim, eu a protejo quando estou em casa. Sou muito forte. Viu o chute que dei no saco de areia?
- Sim, eu vi! E j que estamos aqui, por que no praticamos um, pouco mais?
Sally os observava com um sorriso satisfeito. Era um alivio testemunhar o relacionamento de confiana e carinho entre dois. Pena que Stevie no gostasse de Dallas. Um dia ele lamentaria o tempo que estava perdendo. Mas tinha problemas demais para se preocupar com isso.


Depois da aula, Eb parou na lanchonete da cidade e comprou sorvetes para todos. Enquanto os dois adultos comiam sentados  mesa, Stevie foi apreciar os souvenirs vendidos na loja vizinha.
- Ele  bom nisso  Doug comentou, referindo-se ao treinamento.
- E eu sou uma lstima.
- No. O problema  que no tem a idade dele. As crianas aprendem mais depressa que os adultos. Por isso as escolas ensinam lnguas estrangeiras cada vez mais cedo.
 Fala algum outro idioma, alm do nosso?
- Alguns. Os clssicos, alguns dialetos africanos e russo
 Meu Deus!
 Hoje em dia, ningum pode atuar no ramo da inteligncia estratgica sem um bom conhecimento de idiomas. E tolice propor-se a trabalhar em outro pas sem conhecer a lngua local. E muito perigoso.
 Tive de fazer um curso de idioma estrangeiro na faculdade. Escolhi o espanhol, porque temos uma populao hispnica muito grande por aqui, e uma professora deve ser capaz de comunicar-se com todos os alunos. Li Don Quixote na verso original de Cervantes e fiquei apaixonada pelas touradas. Encontrei um site que oferece biografias de todos os matadores, inclusive dos que so mencionados no livro.
 Alguns autores hispnicos preferem ressaltar os perigos das touradas.
 Oh, eu sei. Lorca, por exemplo, escreveu um famoso poema sobre a morte de seu amigo Sanchez Mejias na arena.
 Sinto falta de conversas como esta, embora muitos de meus homens sejam bem educados. Micah Steele, que hoje presta um trabalho de consultoria para mim, era residente em um dos maiores hospitais do leste quando ingressou em meu grupo.
- Por que ele desistiu de ser mdico? Um homem tem de estudar muito para exercer essa profisso.
- Ningum sabe, e ele nunca toca no assunto. Quase tudo que sabemos sobre Micah nos foi contato pelo pai dele, que foi presidente de um grande banco at sofrer um infarto. Hoje em dia  Callie, a irm de criao de Steele, quem cuida do velho. Pai e filho no se falam desde que o sr. Steele divorciou-se da me de Callie.
 Sabe por que eles optaram pelo divrcio?
 Parece que o pai de Micah o surpreendeu com a madrasta em uma posio comprometedora e expulsou os dois de casa.
 Meu Deus!
 Callie foi a maior vtima. Ela idolatrava Micah, e atualmente ele nem fala com a irm.
 Esse nome soa familiar...
- Porque certamente j o escutou em algum lugar. Callie trabalha para Barnes e Kemp, os advogados mais prestigiados da cidade.
-  claro. Como pude me esquecer?
 Deve ter sido a tenso dos ltimos dias.
 Tem razo.  bom ter um dia como o de hoje. Por algumas horas nem me lembrei do perigo.
 Estou surpreso por Lopez no ter feito nenhum movimento. Surpreso... e preocupado. Ele no costuma recuar.
 Talvez esteja com medo de ser delatado por aqueles dois homens que me atacaram. Se forem presos, eles podem falar...
Eb riu.
- No se iluda. Lopez se livraria deles antes que pudessem formar a primeira sentena. E talvez tenha sido esse o destino daqueles sujeitos. No cartel de Lopez, quem comete erros no tem uma segunda chance.
Sally estremeceu.
 Temos mantido todas as portas trancadas. E tomamos cuidado com o que dizemos.
 Jamais se esquea disso. E nunca abaixe a guarda. Terei sempre algum por perto para entrar em ao em caso de perigo, mas voc precisa fazer sua parte para garantir a segurana da casa.
- Fique tranqilo, Doug. No vou cometer nenhum engano
Ele segurou a mo dela sobre a mesa.
- No tem sido muito fcil, no ? De certa forma, vida  complicada desde que tinha dezessete anos.
 Digamos que passei por um perodo de transio  o corrigiu sorrindo.  E se aprendi alguma coisa ao longo desses anos,  que tudo muda.
 Suponho que sim. Tambm aprendi algumas coisas.
 Quais?
 Nunca tomar nada por certo, por exemplo.
 Pode ser mais claro?
 Sabe que fui noivo, no?
 Sim, eu sei.
 No contei a ela sobre meu trabalho. E ela nunca questionou a origem do meu dinheiro. De fato, quando tentei revelar a verdade, ela me impediu dizendo que no importava, me amava e iria aonde meu trabalho me levasse. Seus pais haviam falecido, e ela foi adotada por uma mulher muito rica que j havia acolhido um garoto mais velho. Apesar de terem crescido juntos, no eram prximos, e por isso eu cuidei todos os detalhes do casamento. Comprei inclusive seu vestido seu de noiva. Mas ainda me sentia incomodado por guardar segredo de algum com quem pretendia dividir a vida, e na noite anterior ao casamento, contei a ela o que fazia para viver. Ela deixou a aliana de noivado sobre a mesa, pegou suas coisas e deixou a cidade horas depois. Casou-se dois me mais tarde... com um homem com o dobro de sua idade.
 Ela no mandou uma carta, no telefonou? No tentou encontr-lo depois de ter refletido um pouco? 
 No. Encontrei Maggie em Houston na semana passada, mas antes disso no tinha idia de onde ela vivia.
Sally sentiu o corao parar de bater.
 Voc a viu... em Houston?
 Foi uma enorme coincidncia. Maggie  scia minoritria de uma firma de  investimentos que presta servios para mim. E est viva.
Todos os sonhos se desfaziam, Amigos. Sim sempre foram grandes amigos. Eb era seu professor de defesa pessoal e a protegia contra um eventual ataque de um poderoso baro das drogas. Mas isso no significava que pretendia passar o resto da vida a seu lado. Pelo contrrio...
 Uma mulher realmente apaixonada teria ficado a seu lado  disse, temendo que a angstia estivesse estampada em seus olhos.
 Maggie queria uma carreira. Sonhava ter independncia e ganhar o prprio dinheiro.
- Meus pais nunca tiveram uma conta em conjunto. Sempre mantiveram a independncia financeira.  Por que estava argumentando? Era intil. O sonho acabara.  Stevie, temos de ir para casa - disse em voz alta.
Ele se aproximou sorrindo.
 Podemos levar sorvete para minha me?
-  claro que sim!  Sally tirou dois dlares da bolsa  V buscar um pote pequeno de sorvete de chocolate. E no esquea de pedir uma tampa.
 Ei, eu podia ter feito isso  Eb protestou ao ver o garoto dirigir-se ao balco.
 Sim, podia, mas ele precisa aprender o valor da responsabilidade. Seis anos  uma boa idade para comear a conquistar independncia.
O trajeto de volta  casa dos Johnson foi silencioso. Sally pensava no que acabara de ouvir sobre a ex-noiva de Eb e tirava suas concluses.  mulher o abandonara ao saber que ele tinha uma profisso perigosa. E se casara com outro homem. Mas agora Eb abandonara o trabalho de campo, e Maggie estava viva. E os dois haviam se reencontrado recentemente. Deprimida, mal conseguiu pronunciar algumas palavras de gratido e um adeus rpido antes de descer da caminhonete.
Eb partiu lamentando a perda da atmosfera relaxada que conseguira estabelecer com Sally naquela tarde. No conseguia entender o que a tornara to distante.
J entrara em contato com um conhecido na Diviso de Narcticos e relatara o que descobrira sobre os planos de Lopez para Jacobsville. Tambm indagara sobre a possibilidade um agente infiltrar-se na operao, mas o homem respondera apenas que a Diviso tinha conhecimento sobre o projeto construo do depsito de Lopez. E recusara-se a fornecer mais informaes.
Sabia que o governo trabalhava bem, e por isso deduzia que a operao de infiltrao j estava em andamento. No a mencionaria a ningum. Nem mesmo a Cy. Dallas monitorava o equipamento instalado na casa de Sally e obtinha informaes constantes, tanto visuais quanto auditivas. Ningum poderia entrar sem ser visto. E tambm instalara escutas no telefone. Naquela noite, sentiu-se feliz por ter tomado tais medidas.

Sally acordou no meio da madrugada com o toque insistente do telefone. Assustada, atendeu ao chamado ainda aturdida e foi surpreendida por uma voz fria o metlica.
- No vai conseguir nos deter. A menos que Jssica fornea o nome at a meia-noite do sbado, as conseqncias sero lastimveis.
Aflita, desligou o telefone e ficou olhando para o aparelho, temendo estar tendo um pesadelo.
O aparelho tocou novamente, desfazendo a iluso.
 Al?
 Ela tem uma nica chance  a voz continuou como se a ligao no houvesse sido interrompida. Jssica deve ligar para este nmero exatamente  meia-noite de sbado e fornecer o nome. Um minuto depois da meia-noite, e todos vocs sofrero as conseqncias.  Ele recitou o nmero e desligou.
O telefone tocou novamente e, apavorada, Sally atendeu com voz trmula.
- No conseguimos localizar a chamada  Eb anunciou furioso.  Voc est bem?
Ela fechou os olhos, respirou fundo e engoliu em seco.
 Sim... acho que estou bem. Ouviu o que e disse?
 Ouvi. No se preocupe.
 No me preocupar? O homem acabou de dizer que vai matar todos os moradores desta casa!
 Ele no vai matar ningum. E tambm no far mais nenhuma ameaa esta noite. Vou localizar o telefone cujo nmero ele deixou. Enquanto isso, volte a dormir.
A ligao foi interrompida. Perplexa, Sally devolveu o fone ao gancho e deitou-se, mas nem tentou fechar os olhos. Sabia que no poderia mais dormir.
Na manh seguinte, pouco antes de partir para a escola em companhia de Stevie, ela contou a Jssica o que havia acontecido.
 Doug e os outros esto atentos  concluiu. - Mesmo assim, no abra a porta para ningum.
 No se preocupe. Lopez pode ser louco e violento, mas  previsvel. Jamais entra em ao enquanto houver uma chance de conseguir o que quer. Temos at a meia-noite de sbado para pensarmos em alguma coisa.
 Maravilhoso! Temos hoje e amanh. At l, todo o bando de Lopez estar na cadeia.
-  Sarcasmo no  seu ponto forte, querida - Jess sorriu.  V trabalhar. Vou ficar bem.
-  Gostaria de ter certeza de que todos ns ficaremos bem  Sally resmungou a caminho da porta.
De alguma forma, sabia que a vida nunca mais seria a mesma. Havia sido terrvel ouvir Eb falando sobre a mulher que o abandonara na vspera do casamento e descobrir que ele ainda pensava nela. E agora ainda tinha de lidar com as ameaas de morte de um poderoso baro das drogas. Como acabara metida naquele pesadelo?
Para piorar a situao, Doug telefonou mais tarde para informar que o nmero deixado pelo bandido pertencia a um celular roubado, e que no poderiam rastre-lo a menos que algum o atendesse. E ningum atendia ao telefone. No teriam tempo para localizar a chamada exatamente  meia-noite. Sally tinha certeza de que jamais recebera notcias mais desanimadoras.




CAPTULO VII

Eb e Dallas comearam a tomar todas as providncias para impedir um ataque. Jssica jamais sacrificaria a vida de um informante, nem mesmo salvar a prpria vida e a dos familiares, e Lopez nunca desistia de cumprir uma ameaa.
 Por que no trazemos Jessica, Sally e o garoto para c? - Dallas sugeriu, pensando em aproveitar a segurana do rancho Johnson para deter os homens de Lopez.
 Porque s conseguiramos adiar o inevitvel. Lopez no desiste. Ele encontrar um meio de chegar at aqui. Alm do mais, Sally precisa trabalhar, e Stevie tem de ir para a escola. No podem viver trancafiados aqui dentro.
Kirk respirou fundo.
 Stevie no gosta de mim. Ele contou  me que est aprendendo carat para me dar uma surra. O menino  valente.
 Muito. Pena que tenha de crescer sem um pai. E antes que se atire sobre mim, sei que Jssica nunca confirmou quem  o pai do garoto. Mas agora voc conhece a verdade.
 Sim, eu sei.. mas ela se nega a discutir o assunto. Na  verdade, Jssica no fala comigo.
 Mas chora a noite toda porque voc a odeia.
Dallas arregalou os olhos.
 O qu?
 Por isso Stevie quer espanc-lo. Porque ele odeia ver a me sofrendo.
 Ora, ora... Ento Jssica no  to indiferente quanto finge ser.  E encarou o amigo.  No acha que ela pode decidir entregar o homem que traiu Lopez?
 No. Est preocupado, no ?
-  claro que sim. Tive oportunidade de testemunhar as conseqncias de algumas das vinganas de Lopez. Ns dois sabemos que nenhuma proteo  suficiente para deter um matador determinado.
 Ento, a nossa far histria  Eb prometeu.  Vamos ate a casa de Cy Parks. Quero saber se ele pode localizar aquele sujeito no Mxico que trabalhava como mercenrio com Dutch Van Meer e Diego Laremos na dcada de oitenta. Ele participou de vrias misses infiltrado em cartis do narcotrfico.
 J. D. Brettman era o lder desse grupo  Dallas lembrou sorrindo.  Hoje em dia  juiz em Chicago. Pode imaginar?
 Ouvi dizer que Van Meer vive com a esposa e os filhos em um rancho na regio noroeste das Montanhas Rochosas. E Laremos?
 Vive com a famlia em Yucatn. Tambm desistiu do trabalho de campo. Aqueles homens eram mais jovens que ns quando comearam e fizeram fortuna.
 A histria era diferente naquela poca. Os tempos mudaram. E as regras tambm. Jamais escaparamos com vida se utilizssemos os truques empregados por aqueles grupos. Todos ns nos conhecemos naquele perodo, mas Cy e Laremos encontraram-se muito antes, quando Cy fazia um pequeno trabalho para um iatista milionrio na regio de Cancun. Talvez ele conhea o soldado profissional que ajudou um amigo de Laremos a escapar de vrios ataques e um seqestro.
 Eu conheo esse amigo?  Dallas perguntou enquanto saam.
 J deve ter ouvido falar em Canton Rourke.
 O sr. Software? O homem que perdeu tudo, reergueu-se e hoje  dono de uma poderosa corporao?
 Ele mesmo. Os pais da sra. Rourke so professores universitrios e realizam escavaes em Yucatn, mais precisamente na regio Maia. E uma longa histria, mas esse agente mexicano costuma fazer alguns trabalhos como autnomo. Ele seria de grande utilidade neste tipo de operao.
 Talvez tenha contatos que possamos usar?
 Talvez.  Eb acomodou-se ao volante e ligou o motor da caminhonete. Depois olhou para o amigo no banco do passageiro.  Alm disso, ele j serviu ao governo mexicano como agente secreto e viveu para contar diversas histrias sobre os traficantes que ajudou a prender. Isso prova que  competente. Muitos agentes secretos acabam mortos.
 Precisamos encontr-lo. A Diviso de Narcticos no vai revelar o nome do agente que designou para a misso, nem o que descobriram atravs dele.
 Exatamente. E ai que Cy deve entrar na histria. Ele tambm no gosta de lembrar ou reviver o passado, mas considerando o perigo que Lopez representa, talvez decida ajudar-nos.
 Pena que no disponha de todos os movimentos do brao.
 Felizmente, Cy sempre usou o outro brao para atirar.


Cy Parks estava observando o trabalho de seu capataz jovem Harley, quando notou a aproximao de Dallas e Eb. Intrigado, afastou-se da parede do celeiro, onde estivera apoiado, e ergueu as sobrancelhas.
 Esto passeando?  perguntou com ironia.
 Hoje no. Precisamos de um nome.
 De quem?
 Do homem que trabalhou com seu amigo Diego Laremos perto de Chichn Itz. Ele  a pea chave de que precisamos para infiltrar no cartel de Lopez.
 Rodrigo? Voc deve estar maluco!
 Por qu?  Eb estranhou. -
 Meu Deus! Diego diz que ele  um renegado. Ningum mais o contrata, nem mesmo para os trabalhos mais sujos.
 O que ele fez de to grave?  Dallas quis saber, notar que o jovem capataz abandonara o touro de que estivera cuidando para ouvir a conversa.
 Para comear, ele destruiu um Huey em Yucatn no ano passado. A agncia governamental que o contratara no ficou nada satisfeita. Depois, Rodrigo explodiu um iate cheio de cocana refinada, uma carga milionria que as autoridades pretendiam confiscar no porto de Cozumel. Entre uma misso e outra, ele destruiu alguns carros alugados em diversas perseguies e invadiu um escritrio do governo, de onde retirou duas pastas confidenciais e equipamentos de vigilncia to sofisticados que s os agentes da lei conseguem comprar. Depois ficou enfurecido em um bar perto do Panam e mandou dois homens para o hospital, pouco antes de fugir com uma mala cheia de dinheiro do trfico que pertencia a Manuel Lopez...
- Estamos falando sobre o mesmo Rodrigo que os federais costumavam chamar de Sr. Calma?  Eb perguntou surpreso.
 No  assim que o chamam hoje em dia. Sr. Prejuzo seria mais apropriado.
Ele esteve com Van Meer e Laremos na frica na dcada de oitenta. Os dois partiram, mas ele ingressou em outro grupo e continuou em ao.
 Sim Doug, e foi ento que ele comeou a trabalhar como autnomo para os federais. Pelo menos, foi o que Diego me contou  acrescentou, notando que Harley ouvia a tudo cm ateno. No queria que seu capataz soubesse sobre o que fizera no passado.
 Algum sabe por que Rodrigo ficou maluco no Panam?  Dallas indagou.
Cy encolheu os ombros.
 Existem rumores... mas nenhuma informao concreta. Se querem contrat-lo para agir contra Lopez, aposto que Rodrigo estaria disposto a pagar um bom dinheiro para participar da misso. Ele odeia Lopez.
Eb olhou para Harley, que parecia mais interessado a cada segundo.
- No se incomode com ele  indicou Cy.  Harley tambm  um mercenrio  acrescentou com um sorriso debochado.
O jovem decidiu entrar em ao.
 Por que no me contratam? Conheo todos esses nomes. Van Meer, Brettman e Laremos so lendas vivas no mundo dos mercenrios.
 Creio que podemos encontrar algum trabalho para voc  Doug respondeu com ar de cumplicidade. Em seguida o sorriso desapareceu de seus lbios, dando lugar a uma expresso ameaadora  Mas tudo isto  confidencial. Se disser uma palavra algum, no  viver para ver o sol nascer. Fui claro?
 Sim, senhor.
 E s trabalhar para ele depois de cumprir suas tarefas no rancho  Cy avisou.  Sou criador de gado. No tenho nada a ver com mercenrios e lutas armadas.
- Sim, senhor!
Parks olhou para Eb.
  Tenho o ltimo nmero do telefone que Rodrigo me deu. Vou busc-lo no escritrio.
Enquanto o dono do rancho se afastava, Harley mal conseguia esconder o entusiasmos.
 Serei um exemplo de eficincia, sr. Scott. Sei manejar qualquer tipo de arma de fogo. Conheo um pouco de artes marciais, sou habilidoso com uma faca e...
 Ei, no precisamos de um assassino, rapaz! Lidamos com a inteligncia.
Os ombros de Harley caram.
 Oh!
 Usar armas de fogo  o que menos importa nesse negocio  Dallas revelou com falsa seriedade. Se atirar em algum mesmo que seja em um criminoso, vai acabar na cadeia.
 Mas... leio sobre o assunto o tempo todo! Aquelas batalhas na frica, a coragem dos soldados que arriscam a vida por um ideal... Espero que o sr. Parks esteja falando srio. Ele no gosta muito de aventuras e reagiu com um certo sarcasmo quando contei sobre o que fiz nas frias. Estive na Amrica Central com um grupo de mercenrios. Foi inesquecvel!
 Cy no se entusiasmou como relato?  Eb provocou notando que o amigo voltava.
 Oh, no! Ele  s um pacato rancheiro. Mesmo que conhea o sr. Laremos, no pode imaginar o que  ser um soldado da fortuna. Mas ns sabemos, no?
Eb e Dallas trocaram um olhar silencioso e conseguiram conter o riso. Era evidente que Harley no imagina que o patro fizera no passado. Por isso no questionava sua ligao com famosos mercenrios.
Cy juntou-se  ao grupo e entregou a Doug um pedao de papel com um nmero de telefone.
- Espero que consiga encontr-lo  disse.
 Ainda tem notcias de Laremos?  indagou Doug
 Todos os anos, no Natal. Ele tem trs filhos, e o mais j est concluindo o ensino fundamental. Estou ficando velho.
 Todos ns estamos.
  melhor irmos embora  Dallas avisou enquanto olhava para o relgio
 Ei, e eu?  Harley perguntou excitado.
 Entraremos em contato no momento oportuno  Doug prometeu.
Era estranho, mas a promessa soava como uma ameaa.
Cy despediu-se dos amigos e foi verificar o curativo feito touro doente.
 Bom trabalho, Harley disse.  Ainda ser um rancheiro.
 Como conhece o sr. Laremos, senhor?
 Oh, temos conhecidos em comum. Diego ainda mantm com contato com o velho grupo, e por isso sabe o que est acontecendo no mundo dos agentes.
 Entendo. Foi o que pensei. E foi cuidar dos outros animais.


 Assim que chegaram ao rancho, Eb telefonou para o nmero que Cy Parks anotara no pedao de papel. Uma voz rpida e profunda atendeu do outro lado e forneceu instrues apressadas. Devia deixar seu nome e o nmero de onde estava ligando e desligar imediatamente. Doug obedeceu, e segundos depois o aparelho soou.
 Voc tem uma escola de estratgia e tticas no Texas  a voz profunda anunciou mais calma.
Sim.
 Li sobre seu trabalho em um relatrio da inteligncia. Pensei que fosse um desses mercenrios aposentados que passam o dia sentados atrs de uma mesa, lembrando os velhos tempos, mas Laremos me corrigiu. Ele se lembra de voc e de outro morador de Jacobsville chamado Parks.
 Cy e eu trabalhvamos juntos. Dallas Kirk e Micah Steele faziam parte do grupo.
 No os conheo, mas conheo Parks. Se est procurando algum para operaes clandestinas, no estou disponvel. E tambm no fao mais nenhum trabalho no exterior. Alguns crculos da Amrica do Sul oferecem recompensas muito generosas por minha cabea.
 No se trata de uma misso no exterior. Quero algum para agir aqui no Texas e obter informaes de um cartel de drogas.
- No seu lugar, estaria procurando algum com uma doena terminal para esse tipo de trabalho. Normalmente  fatal.
- Cy Parks disse que voc agarraria a oportunidade sem hesitar.
- Essa  boa! Que oportunidade?
- O baro que estou perseguindo chama-se Manuel Lopez. Quero coloc-lo na cadeia definitivamente.
Houve um silncio prolongado do outro lado da linha, seguido por uma descrio de Lopez que questionava sua paternidade, sua moral e vrias outras facetas de sua vida privada em ingls e em espanhol.
- Estamos falando sobre o mesmo homem  Eb afirmou.  Interessado?
- Em mat-lo? Sim. Em coloc-lo na priso? Bem... ele ainda poder chefiar o cartel.
 Enquanto ele estiver preso, a organizao poder receber agentes infiltrados que a destruiro de dentro para fora. De fato, estamos encurralados em Jacobsville porque uma amiga do nosso grupo insiste em proteger a identidade de um amigo de Lopez que o traiu.
- Continue  Rodrigo pediu.
 Lopez est disposto a matar uma ex-agente do governo que conseguiu arrancar informaes importantes de um de amigos e mand-lo para a cadeia usando esses dados. Ele s escapou por causa de um pequeno detalhe tcnico que seus advogados no hesitaram em usar, e est aproveitando a liberdade temporria para acabar com ela e seu informante.
 E as tais informaes? No podem ser usadas como evidncias incontestveis?
- Todas as evidncias tero desaparecido na poca do julgamento. Se Lopez conseguir livrar-se das testemunhas e destruir as provas, nunca mais voltar para a priso. Deve saber que ele j escapou antes.
 Oh, sim, eu sei! Se a fiana for estabelecida em um milho de dlares, ele pagar a quantia em dinheiro.
- Exatamente.
- Bem... Houve um suspiro do outro lado da linha - Acho que estou trabalhando para voc, companheiro.
Eb sorriu.
 Vou colocar seu nome na folha de pagamento. S mais um detalhe, Rodrigo. Ouvi dizer que voc  e Lopez j tiveram... interesses em comum. Ele o conhece pessoalmente? Pode identifica-lo?
 No.
 - Os riscos so grandes. Tem certeza de que est disposto a enfrent-los?
-Estou disposto a enfrentar o fogo do inferno para por as mos naquele sujeito. Espere por mim amanh.  E desligou

Naquela noite Eb levou Sally para jantar. Como iriam a Houston, ele preferiu usar o Jaguar.
Sally permanecia silenciosa no banco do passageiro. Depois de tudo que ouvira sobre sua ex-noiva, no esperava estar sozinha com ele novamente. E no entanto, l estava ela. A determinao no era exatamente uma arma eficaz na guerra contra os sentimentos. De qualquer maneira, sabia que Eb e Maggie poderiam ter uma segunda chance, e no estava disposta a arriscar o corao. Por isso sorria, era educada e gentil, mas mantinha uma distncia segura do homem.
Doug notou a reticncia, mas no a entendia.
-Tem certeza de que devemos mesmo sair? Sei que Dallas vai cuidar de Jess e Stevie, mas considero arriscado andarmos por a  noite com Lopez e seus homens por perto.
- O homem  um demnio de crueldade, mas tambm   previsvel. Ele vai esperar por Jssica at a meia-noite de sbado. No far nada antes disso. Mas, um minuto depois da meia-noite, ele tentar um ataque.
 Como podemos conviver com pessoas assim? Em que tipo de mundo estamos?  Sally indagou aflita.
- Esquecemos que todas as vidas esto ligadas de alguma forma, e que a ganncia e o egosmo no so caractersticas desejveis.
- O que Lopez poder lucrar nos matando? Sei que ele est furioso com Jssica, mas se ela morrer, no poder dizer mais nada.
 Lopez estar dando um exemplo. E claro que ele acredita que Jess fornecer o nome do traidor para salvar seu filho. O que faria no lugar dela?
 No seria difcil escolher entre meu filho e algum que j traiu a confiana de seu povo.
Jssica insiste em dizer que existem circunstancias atenuantes.
 E sei. Ela se recusa a revelar o nome do sujeito a quem quer que seja. At mesmo para mim. Se eu soubesse...
- Entregaria o tal homem a Lopez?
 Talvez...
- Duvido.
Eb a conhecia muito bem.
- Gostaria de encontrar outra saida para a situao, s isso. No quero que Stevie seja ferido.
- Ele no vai sofrer nenhum dano.  E segurou a mo dela. Estou montando uma rede. De agora em diante, Lopez no dar um passo sem que um dos nossos saiba. Sabe danar?
A pergunta a pegou de surpresa. 
- Um pouco. Por qu?
 Iremos a um lugar com uma pista de dana e uma banda esplndida. Um local sofisticado com alguns amigos colocados em pontos estratgicos.
 Eu devia ter imaginado.
 Garanto que vai gostar. E nem conseguir encontr-los. Os rapazes sabem como se misturar  multido.
 Mas voc se sobressai.
- Se esta me elogiando, obrigado.
-Por nada.
 Voc tambm  especial.
O comentrio provocou uma onda de calor.
 Tem certeza de que Jess e Stevie no correm nenhum perigo.
 Dallas est com eles, e deixei alguns homens do lado de fora da casa. Alm do mais, Lopez no far nada at a noite de amanh.
Supunha que o conhecimento do inimigo fazia parte de uma profisso perigosa. Mas no conseguia deixar de preocupar com sua famlia. Se alguma coisa acontecesse enquanto estava fora, jamais poderia perdoar-se.
A casa noturna era luxuosa. Havia um bar e uma cafeteria alm do restaurante com mesas distribudas em torno de uma pista de dana. A banda tocava melodias romnticas, e alguns casais danavam.
 Isto  maravilhoso  ela disse assim que se sentaram perto de uma fonte adornada por plantas tropicais.
  meu local favorito quando estou em Houston. Costumo vir...
 Doug!  A voz suave soou atrs de Sally.  Que coincidncia encontr-lo em um de nossos locais preferidos!
Sem ouvir nenhuma explicao, Sally teve certeza da identidade da recm-chegada. S podia ser a ex-noiva de Eb.




CAPTULO VIII


- Ol, Maggie. - Doug levantou-se para cumprimentar a bela morena de olhos verdes que, sorrindo, pendurou-se em seu brao.
 E bom v-lo novamente. E to depressa! Lembra-se de Cord Romero, no?  perguntou, indicando o homem alto e moreno a seu lado.  Ele e eu fomos adotados pela Sra. Amy Barton.
 Sim, eu me lembro. Como vai, Cord?
O homem respondeu com um movimento de cabea. Sally comeou a ficar curiosa com o desconforto de Maggie. Afinal, eram como irmos, no?
 Sally, estes so Maggie Barton e Cord Romero. Sally Johnson.  Todos trocaram apertos d mos. - No querem juntar-se a ns?
Os olhos de Maggie adquiriram um brilho sbito e entusiasmado, sinal evidente de que ela pretendia aceitar o convite.
 Talvez no seja conveniente  Cord apontou, olhando para Sally com ar expressivo.
 Oh, no!  ela reagiu de imediato.
 Sally precisa sair e divertir-se um pouco  Doug explicou com um sorriso terno.  Ela  professora.
Cord estudou-a com curiosidade, enquanto Doug ajudava Maggie a sentar-se. Romero decidiu imit-lo e puxou a cadeira.
 Por favor  disse.
Sally sorriu diante da cortesia.
- Obrigada.
Doug os encarou com ar indecifrvel antes de voltar-se para Maggie, que parecia agitada e evitava encarar os outros dois.
 Que coincidncia encontr-la aqui.
 A idia foi de Cord. Ele queria sair um pouco, e como no tem namorada... Melhor a irm de criao do que ningum certo?  acrescentou com uma risada nervosa.
Cord encolheu os ombros e no disse nada, mas a contrariedade provocada pelo comentrio podia ser vista em olhos escuros.
Sally estava realmente curiosa, O que ele faria para viver. Tinha uma excelente forma fisica para sua idade, provavelmente a mesma de Doug, cerca de trinta e cinco anos. As mos eram calejadas, como se enfrentasse o trabalho braal. E ele tinha o mesmo olhar estranho que havia notado em Dallas e ate em Cy Parks, um olhar que era ao mesmo tempo vazio, distante e atento.
 Como vo as coisas no rancho?  Maggie perguntou. - Soube que Dallas est trabalhando com voc.
 Sim, ele est fazendo alguns servios de consultoria para mim.
 Foi ferido por tiros, no?  Cord indagou de repente os olhos fixos no rosto de Sally.
  o que acontece quando um homem no presta ateno ao trabalho  Doug respondeu com expresso carrancuda.
Cord evitou encar-lo.
 Um de meus amigos vai oferecer uma grandiosa festade Natal em Cancun  Maggie murmurou, deslizando a unha vermelha pelo brao de Eb. Porque no tira uns dias de folga e viaja comigo?
 No posso. No tenho tempo para o lazer.
 Porque   muito ambicioso. Com o dinheiro que ganhou podia estar aposentado.
 Para qu? Acha que eu suportaria passar os dias sentado diante da tev?
 No. Mas podia encontrar outra ocupao  algo que no  envolvesse tantos perigos.
 J tivemos essa discusso antes e voc conhece todos os meus argumentos.
Maggie retirou a mo com um sorriso triste.
 Sim, eu sei. No pode mudar sua natureza.
Sally sentia-se impotente. J havia percebido que Eb ainda tinha sentimentos profundos por Maggie. Olhou para as prprias mos, para as unhas curtas e sem  esmalte e compreendeu que a diferena entre elas era bvia. Uma era exuberante, cheia de vida e atraente, enquanto a outra era retrada, compenetrada e... sem graa.
 Ento  professora...  Cord disse a seu lado.  Qual  sua especialidade, srta. Johnson?
 Histria. Mas estou lecionando para as primeiras sries do ensino fundamental, o que significa que no tenho me dedicado a ela.
 No tem inteno de lecionar em cursos mais avanados?
 No. Tentei quando estava fazendo estgio, mas descobri que tenho uma certa dificuldade para impor a disciplina necessria aos alunos mais velhos.
 Nunca tive essa dificuldade, mas o diretor da escola no aprovava meus mtodos.
 Tambm  professor?
 Lecionei cincias para a oitava srie durante um ano, logo depois de concluir a faculdade. Mas no amava a profisso e bastante para continuar. Descobri interesses mais fortes em reas distintas.
Maggie pegou o copo de gua e bebeu alguns goles. 
 Que reas?  Sally indagou fascinada.
Cord olhou para o outro homem, que o encarava com ar ameaador.
 Pergunte a Eb  disse rindo. Depois olhou para Maggie.  Podemos pedir o jantar? Estou faminto.
Doug chamou o garom e encenou a conversa. 
Foi a refeio mais longa e tensa que Sally j enfrentara. Maggie e Doug falavam sobre lugares e pessoas que haviam conhecido, enquanto ela tentava comer.
Cord era polido, mas no tentou retomar a conversa. No final da noite quando os dois casais despediram-se na porta do restaurante, Maggie segurou a mo de Doug ate que ele conseguiu interromper  o contato com um movimento mais firme.
- Por que no aparece para jantar conosco numa noite dessas  ela convidou.
 Talvez  Doug respondeu com um sorriso frio. Depois olhou para Cord.  Foi bom rev-lo.
Cord assentiu e olhou para Sally.
 Foi um prazer conhec-la, srta. Johnson.
- O prazer foi meu.
Assim que entraram no carro Eb deixou cair a mscara de cortesia. Sem disfarar o aborrecimento, fitou-a e disparou:
 No o encoraje.
O qu?
 Voc ouviu. O homem tem uma fraqueza por louras. Passou a noite toda devorando voc com os olhos.  E ligou motor. Mas, em vez de engatar a marcha e partir, ele a tocou na nuca e cravou os olhos nos dela. - E eu tambm. - beijou-a. Enquanto os dedos acariciavam a pele macia do pescoo, a outra mo buscou um seio rgido, tocando-o com atrevimento surpreendente.
- Doug!
Mas era como se ele no a ouvisse. Dominado pelo desejo deixava a boca e as mos buscarem parte do prazer que esperava obter algum dia. E Sally no tinha toras para resistir ao calor que a incendiava. No era capaz de protestar contra as liberdades que ele tomava, nem tinha voz para lembrar que estavam em um local pblico, no estacionamento de um restaurante sofisticado. No se incomodava com nada. A nica coisa que queria era ter certeza de que ele no pararia. No podia parar...
Mas, de repente, ele parou. Consciente do desejo estampado em seu rosto, Doug segurou suas mos e afastou-se devagar.
- No.	- O corpo todo clamava pelo dela, e seria ainda pior se no parasse imediatamente. Sally era uma tentao. Teria de tomar cuidado para no toc-la novamente quando estivessem sozinhos, porque as conseqncias poderiam ser desastrosas. Aquele no era o momento para comear um relacionamento. Se perdesse a cabea, se dispersasse energia, o preo seria um punhado de vidas humanas.  Preciso lev-la para casa,
Sally assentiu. Humilhada ficou em silncio olhando pela janela, evitando e temendo encar-lo.
O trajeto foi longo e quieto. Doug parecia to preocupado e distante quanto naquela tarde de primavera. Estaria pensando em Maggie e lamentando a deciso de t-la rejeitado?
 Por que Maggie e Cord tratam-se com tanta frieza?  estranho para duas pessoas que cresceram juntas. E ela no o apresentou como irmo. Por acaso so parentes, ou existe algum lao mais forte entre eles?
 No. Os pais de Cord morreram em um incndio, e ela  fruto de uma famlia problemtica. A sra. Barton os adotou. Maggie aceitou o nome da me adotiva, mas Cord preferiu manter o nome do pai, um famoso toureiro espanhol. Normalmente, Maggie se esfora para apresent-lo como irmo. Ela tem muito medo dele, apesar de terem sido muito prximos desde a adoo.
- Medo? Por que ela teria medo de algum com quem cresceu?
Eb riu.
 Porque ela o deseja, embora ainda no tenha percebido. Ele foi meu colega por muito tempo, e sempre acreditei que Maggie tornou-se minha noiva para afastar a tentao representada por Romero.
 Colega? Ento ele...?
 Exatamente. Cord ainda trabalha com Micah Steele e  especialista em demolies.
 No  um trabalho perigoso?
 Muito. A esposa dele morreu h quatro anos. Cometeu suicdio. E ele nunca superou a perda.
 Por que ela se matou?
Porque ele trabalhava para o FBI na poca do casamento e foi ferido por tiros alguns meses depois. Ela nunca havia percebido que o trabalho do marido envolvia riscos to, grandes. Cord passou vrias semanas no hospital, e a pobrezinha quase enlouqueceu. Depois passou a pression-lo, mas ele se negou a abandonar o trabalho que amava. Patricia no suportava a idia de conviver com o perigo, com a possibilidade de perd-lo para a morte, mas tambm no tinha foras para deix-lo. Ento seguiu o caminho mais fcil. Fcil para ela... Para Romero, a vida transformou-se em um tormento depois disso.
 Imagino que ainda carregue a culpa.
 Sim, ele se sente culpado. Tudo isso aconteceu na mesma poca em que Maggie rompeu o noivado comigo. Ela disse que no queria acabar como Patrcia.
 Maggie conhecia bem a esposa de Cord?
 Elas eram grandes amigas. E algo aconteceu entre Cord e Maggie logo aps o funeral da sra. Barton. Jamais tive acesso aos detalhes, mas o fato  que Maggie se casou repentinamente com um homem muito mais velho. No sei por que, mas estou certo de que a deciso teve alguma relao com Cord.
 Ele  nico.
-  um mercenrio endurecido. Desistiu do FBI depois da morte da esposa e ingressou em um grupo de ex-agentes especiais que prestava servios autnomos. Comeou atuando na rea de demolies e tornou-se um especialista.
 Sally olhou pan Doug como se houvesse compreendido algo muito importante.
- Ele quer morrer.
 Voc  muito observadora. Sim,  o que penso. Pena que ele e Maggie no se enxerguem de verdade. So muito parecidos
 Ainda gosta dela, no ?
Eb riu.
 No. Maggie  uma mulher doce e gentil, e provavelmente teria me casado com ela se as circunstncias fossem diferentes. Mas duvido que ela pudesse conviver comigo por muito tempo. Maggie muito passional.
 Tambm sou passional!
 Sim, mas  corajosa. Tem fibra, esprito de luta... Gosto disso. Quando perder a calma, e isso acontece com uma certa freqncia, no vai tentar se esconder no armrio. Mas... por que perguntou sobre meus sentimentos por Maggie? Est com cime, srta. Johnson?
Era intil negar a realidade.
-Sim  confessou.
 Maggie faz parte do passado. No tenho o menor desejo de reviver momentos que j se foram.., exceto os nossos
Sally encarou-o e viu o fogo em seus olhos.
 Doug...
 Acalme-se. No temos pressa. Temos todo o tempo do mundo
 Temos mesmo?  ela murmurou, lembrando-se das ameaas de Lopez.	
 No tente acelerar o ritmo da vida, Sally. D um passo de cada vez. No vou deixar que nada acontea com voc, Jssica ou Stevie.	
 Desculpe... Mas entro em pnico quando penso em tudo que est acontecendo.	
 Enfrento o perigo h muito tempo. Disponho de um sistema de segurana moderno e eficiente. Nada poder passar por ele sem ser notado. Lopez julga-se intocvel. No acredita que a justia possa peg-lo, mas vamos provar que ele esta enganado.
 Como  possvel fazer justia com um homem rico o bastante para comprar o pas?
 Bloqueando a fonte dessa riqueza. Sem a cabea, a cobra no pode ir muito longe. E pare de se preocupar, est bem?
 Vou tentar.
- Acho melhor levar voc e Stevie  escola todos os dias. Tambm irei busc-los depois da aula.
- Por qu?
 Porque Lopez no hesitaria em rapt-los para aumentar a presso.
 Droga! Por que Jess tinha de se meter nessa encrenca? Se no houvesse arrancado informaes do tal sujeito...
 Sally, o cartel de Lopez abastece os Estados Unidos com um quarto das drogas vendidas no pas. Existem muitas crianas viciadas e outras mortas.
- Tem razo  ela suspirou.  Estou sendo egosta.
 No  egosmo pensar no bem estar de pessoas que ama. Mas jogar Lopez atrs das grades e cortar suas conexes ser um passo muito importante para transformamos o mundo em um lugar melhor.
Eb dirigia com cuidado, mantendo os olhos fixos na estrada. Apesar do perigo iminente, no conseguia tirar da cabea a idia de parar no acostamento escuro e tom-la nos braos. Mas tinha de ser prtico. Os homens de Lopez s precisavam de uma oportunidade, e no pretendia facilitar as coisas para os bandidos.
Quando chegaram, todas as luzes da casa estavam acesas. Dallas estava sentado na varanda, fumando.
 Divertiram-se?  ele perguntou ao v-los subindo a escada.
 Muito - Eb respondeu.  Encontramos Cord Romero. Pensei que ele estivesse no exterior ajudando a detonar minas terrestres.
 Romero est em Houston, provavelmente esperando uma nova misso. Por que veio sentar-se aqui fora?
 Jssica est tossindo. No quis fumar l dentro.
 Voltaram a conversar?
 Bem, pelo menos ela parou de jogar coisas contra mim.
Sally arregalou os olhos,
 O que ela jogou em voc?
 Qualquer coisa que pudesse encontrar.
 Devia conversar com ela  Doug sugeriu.
 Seria timo, se ela quisesse conversar.  E apagou o cigarro.  Estarei no bosque com Smith.
 Olhe por onde anda.
- Por qu? A floresta foi minada?
 No exatamente. Quero dizer, no usamos explosivos.
 Dallas balanou a cabea e afastou-se at desaparecer alm do bosque que limitava o ptio.
 Tente dormir, Sally  Doug aconselhou.  Estarei por perto. E os rapazes esto atentos.
- Certo. Obrigada pelo jantar. Foi delicioso.
 Teria sido melhor sem companhia, mas foi inevitvel. Na prxima vez terei um plano de emergncia.
Ela sorriu.
 Combinado.
Eb esperou que ela entrasse em casa e trancasse a porta. Depois voltou ao carro. Restavam menos de vinte e quatro horas para o prazo estabelecido por Lopez, e tinha de certificar-se de que todos estavam preparados para qualquer eventualidade.

Sally parou na porta da sala e descobriu que Dallas no estivera brincando.
 Meu Deus!
 Ele me provocou  Jssica respondeu. . Disse que eu estava ficando velha e preguiosa e que passava o tempo todo rastejando pela casa como uma lesma de jardim!
- Oh, Jess!  Perturbada, comeou a recolher os pedaos de vasos e outros objetos utilizados como armas.
 O que ele espera que eu faa sem minha viso? Que sai para um passeio de carro? O homem me acusou de insanidade porque no quero revelar o nome de meu informante! Disse que uma boa me no poria em risco a vida de um filho para proteger um bandido traidor. Foi quando atirei o vaso. Espero t-lo atingido!
Sally no conseguiu conter o riso.
- Esta no  a Jssica que conheo!
 Sou a mesma Jssica de sempre. Um pouco descontrolada mas depois de todo aquele sarcasmo... Dallas no  capaz de ver nada de positivo em mim. Tudo que digo ou fao est errado
 Ele no parece ser to mau.
 Eu no disse que ele  mau. Disse que  inconveniente, sarcstico, desagradvel e presunoso. Ele riu o tempo todo!
 Talvez tenham sido gemidos, gritos de dor...
 Ningum pode faz-lo sentir dor. Seria preciso amarrar uma bomba em sua cintura.
 Uma medida drstica, certamente.
.Jssica respirou fundo e reclinou-se na cadeira.
 Odeio discusses. E ele parece viver delas. Ele ensinou Stevie a tranar uma corda.
  mesmo? Pensei que Stevie quisesse surr-lo.
 Os dois andaram conversando a ss. No sei o que disseram, mas quando voltaram, Dallas trazia fios de crina e ensinou meu filho a tran-lo
 E depois?
 Depois... Bem, ele disse que eu poderia ter ensinado Stevie a tranar uma corda e muitas outras coisas, se me exercitasse ocasionalmente, em vez de viver como um vegetal na frente de uma televiso que nem posso ver.
 Entendo.
Pena no ter encontrado mais nada para jogar no sujeito. Estava alcanando o abajur quando ele anunciou que ia esperar por vocs na varanda. Stevie decidiu ir para a cama. Todos fugiram para seus esconderijos, como se eu fosse um mssil desgovernado.
 Tem de reconhecer que a comparao no  das piores.
Jssica riu.
 Como foi o jantar?
 Mais ou menos. Encontramos a ex-noiva de Doug no restaurante.
 Maggie? Como ela est?
 Linda e completamente apaixonada por Doug, a julgar pelas indicaes. Aposto que teria nos seguido ate aqui, se seu acompanhante alto e moreno no a houvesse levado embora.
- Cord estava com ela?
 Voc o conhece?
 Oh, sim! Cheguei a me interessar por ele em uma poca, mas Cord preferiu casar-se com Patricia. Ela era uma espcie de boneca de porcelana. Clara, loura, delicada... E o idolatrava. Estavam casados havia poucos meses quando ele foi ferido num tiroteio com um traficante. A pobrezinha no suportou. Quando Cord saiu do hospital e voltou para casa, encontrou o corpo de Patrcia e um bilhete amassado entre seus dedos gelados. O homem enlouqueceu. Depois disso, passou a aceitar todas as misses suicidas. E no creio que tenha superado perda. Cord amava a esposa.
 Doug comentou que ele trabalha com Micah Steele.
-  verdade. E a temos mais uma coincidncia. Micah tambm tem uma irm de criao. Voc a conhece. Callie trabalha no escritrio de advocacia do sr. Kemp.
 Sim, estudamos juntas. Mas Micah no tem contato com ela desde que seu pai divorciou-se da me de Callie. Dizem que o sr. Steele surpreendeu a esposa e o filho em uma posio muito comprometedora e os expulsou de casa.
 Essa  a histria mais conhecida, mas existem outras coisas por trs dela.
 O que Callie deve pensar sobre o trabalho de Micah?
 No sei o que ela pensa, mas aposto que tem um sentimento comum a todas as mulheres. Medo.
Sally sabia que Jssica estava falando sobre Dallas, sobre como encarava seu trabalho como soldado da fortuna. O que sentiria em circunstncias parecidas? Pelo menos Doug no era mais um mercenrio. Sabia que poderia ajustar-se ao estilo de vida que ele escolhera. Difcil seria convenc-lo disso... e de que precisava dela tanto quanto ela precisava dele.



CAPITULO IX


Sally passou o sbado sobressaltada, pulando a cada pequeno rudo que ouvia. Jssica sentiu a tenso.
 Precisa confiar em Doug  e disse  sobrinha enquanto Stevie assistia aos desenhos animados na televiso da sala. - Ele sabe o que est fazendo. Lopez no poder nos atingir.
Sally bebeu um pouco do caf. Do outro lado da mesa da cozinha, Jess parecia serena.
 No estou preocupada conosco  respondeu.  Mas Stevie...
 Dallas no vai permitir que algum o machuque. 
Sally sorriu, lembrando os objetos quebrados na noite anterior. 
- Pelo menos esto se falando.
 S o necessrio. Mas agora Stevie gosta dele. Os dois tm interesses em comum, como as lutas, por exemplo. Dallas fez parte da equipe de luta livre da universidade e est ensinando alguns tragues ao garoto.
 Tudo que puder servir para torn-lo mais forte ser bem-vindo.
-  o que penso. O que achou de Cord Romero? 
-  o ex-professor mais estranho que j conheci. Doug me contou que Maggie foge dele.
  verdade. Sempre achei que ela ficou noiva de Eb para provocar Romero, mas foi intil. Ele nunca a notou.
 Jess, ele tem o mesmo tipo de trabalho de Doug, e por isso Maggie o abandonou.
 Ela deve ter percebido seu erro. Algumas mulheres so realmente incapazes de conviver com o perigo constante. Patricia, por exemplo, teria acabado louca, se no houvesse cometido o suicdio. Mas Maggie  valente, forte... Sabe que ela enfrentou um assaltante usando um estilete que levava na bolsa. O rapaz teve de levar alguns pontos na mo antes de ser levado para a cadeia. No, querida. Ela no se casou com Doug porque no o amava. E ele nunca a amou. Queria apenas a estabilidade que julgava poder encontrar no casamento mais nada.
- Acha que algum dia ele se casar?
 Quando estiver pronto. Mas no ser com Maggie. 
Sally decidiu, retomar o assunto que a importunava.
- Jess, sabe onde esta seu informante?
 No. Perdemos contato depois da priso de Lopez. Ouvi dizer que ele voltou para o Mxico, mas no tentei falar com... ele.	
 Se ele mesmo trair-se?
- Isso no vai acontecer. E no vou entregar uma testemunha nas mos de um bandido cruel. Nunca.
 Eu sei que no. No seu lugar, tambm no revelaria nome. Mas a situao  assustadora.
 Um dia tudo isso vai acabar, e ento poderemos voltar a viver normalmente. O que tiver de acontecer, acontecer. Talvez no saibamos o que estamos fazendo, mas Deus sempre sabe o que faz. Estamos nas mos Dele.
 Tem razo. No vou mais preocupar-me.
- Doug  competente, Sally. O melhor do mundo. E Lopez sabe disso. Apesar da ameaa que fez, no provocar um confronto direto.
- E se ele tiver um lanador de msseis, por exemplo? 
Quilmetros distante dali, numa abafada sala de comunicaes, um homem de olhos verdes fez sinal para um subordinado. No perderia nada verificando a possibilidade. Sally podia estar nervosa, mas tinha um instinto aguado... e um anjo da guarda em botas de caubi.


Manuel Lopez olhou pela janela do quarto andar de sua manso no Golfo do Mxico e praguejou. Um de seus subordinados havia acabado de transmitir ms noticias, e estava furioso.
 So apenas alguns homenso rapaz disse em espanhol.  Se enviarmos uma fora maior contra eles, no teremos problemas.
Lopez virou-se e encarou-o irado.
 Sim, mandamos uma fora maior, e o FBI e a Diviso de Entorpecentes enviaro suas tropas de choque!
- Seria tarde demais para eles.
 J tenho problemas demais com os federais americanos. No quero dar motivos para que eles mandem seus agentes secretos atrs de mim. Scott tem influncia junto ao governo. Meu objetivo  conseguir o nome do traidor, no a morte da mulher e de todos que a cercam.
- Ela jamais revelar o nome de quem o traiu. Nem mesmo para proteger o filho.
 Porque at agora usamos apenas palavras para amea-la. Temos de passar  ao, entende? A meia de hoje, um helicptero sobrevoar a casa e lanar uma bomba de fumaa. O ataque est sendo esperado, mas ainda no ser o verdadeiro.
 E provvel que eles tenham msseis.
 Mas so moles demais para us-los. Por isso os venceremos no final. No tenho escrpulos, enquanto eles so cheios deles. Agora escute. Quero que um dos homens remova um vigia da escola elementar. Ele pode ser drogado ou ameaado, tanto faz, desde que seja retirado do caminho por um dia. Um de nossos homens tomar o lugar dele. O substituto deve descobrir como  o garoto e em que sala estuda. Tudo deve ser feito com muito cuidado, de forma que ningum perceba nada at que seja tarde demais. At que o menino esteja conosco. Entendeu?
 Sim, senhor. Onde ele deve ser mantido?
 No imvel alugado perto da casa dos Johnson. Ser uma grande ironia!  Ele riu.  Mas no quero que o machuquem. Isso deve estar muito claro. Lembra-se do homem que desobedeceu minhas ordens e ps fogo na casa de um inimigo em Wyoming antes do momento oportuno? Ele devia ter esperado at que o sujeito estivesse sozinho, mas precipitou-se e matou um garoto de cinco anos de idade.
O rapaz engoliu em seco e assentiu.
- Se algum tocar em um fio de cabelo daquele menino, juro que ter um destino ainda pior do que o de seu antecessor no erro. Cuidarei disso pessoalmente, se for necessrio. Sou um homem frio e violento, mas no mato crianas. Esta deve ser minha nica virtude. Agora v. E avise-me quando minhas ordens forem cumpridas.
 Sim, senhor.
Sozinho, Lopez no pde resistir  fora das lembranas.
Vira a me e os irmos morrerem nas mos de um lder guerrilheiro aos quatro anos de idade. O pai havia sido um pobre trabalhador cujo salrio no era suficiente nem mesmo para alimentar a famlia, e por isso passara a infncia esmolando e revirando lixos em busca de restos de comida como um animal escondendo-se nas sombras para no ser torturado pelos invasores. Seu pai no tivera muita sorte, mas os dois conseguiram chegar aos Estados Unidos, mais precisamente em Victoria, no Texas, quando ele tinha dez anos de idade. Vira o pai sacrificar-se como zelador e nunca mais esquecera sua expresso de cansao, angstia e sofrimento. Por isso prometera a si mesmo que nunca mais experimentaria a pobreza. E apesar da angstia do pai, encontrara rapidamente um caminho o dinheiro fcil.
Era rico e muito poderoso. Uma palavra sua, e cabeas poderiam rolar em qualquer parte do mundo. Mas levava uma existncia vazia, fria e amarga. A princpio agira impelido pelo desejo de vingana, pela inteno de vingar a morte da me e dos irmos mais novos. Feito isso, passara a sonhar com a riqueza e o poder. Um passo levou ao outro, ate que a situao escapou ao seu controle. Primeiro tornou-se assassino, depois ladro e, finalmente, baro das drogas. Era impiedoso e sabia que um dia seria castigado por seus pecados, mas antes descobriria quem o entregara s autoridades dois anos antes. Que ironia! A vingana o levara ao poder, e o mesmo desejo de vingana quase o derrubara. Maldita Jssica! Por que no revelava o nome do homem? S descobrira a participao da mulher em sua priso seis meses atrs. E agora ela pagaria por isso. Descobriria o nome de seu traidor a qualquer custo!
Olhou para as montanhas e sentiu a dor ao lembrar mais vez o rosto plido e sem vida da mulher que quisera mais do que o nome do traidor. Isabella. Jamais havia amado algum at Isabella chegar em sua casa como uma criada, irm dos inquilinos de um de seus amigos. Ela conversava com ele, o admirava e o provocava como se fosse um menino. Tornara-se to necessria, que acabara contando a ela coisas que jamais revelara a ningum. Ela o levara a desejar ser limpo a desistir da vida de crimes, a ter uma famlia, um lar. Mas quando a abordara para falar de sua paixo, Isabella o rejeitara. Furioso por ter sido repelido com tanta altivez durante uma festa em seu iate, ele a agredira. Isabella cara no mar e desaparecera sob o casco do barco.
Arrependera-se imediatamente do ato impensado, mas havia sido tarde demais. Mandara seus homens procurarem por ela nas guas mornas do Golfo at o dia amanhecer, mas s a encontraram na praia horas mais tarde. Morta. Levada pela mar at a praia que fazia parte de sua manso. A morte de Isabella tornara sua vida ainda mais barata e destrura qualquer possibilidade de auto-estima ou amor prprio. Por conta de seu temperamento explosivo, perdera o que havia de mais precioso em sua existncia srdida. Merecia as penas do inferno por ter tirado a vida de uma criatura to especial.
Desde aquela noite, h dois anos, pouco antes de sua priso por narcotrfico nos Estados Unidos, no pensara em outra coisa alm de descobrir o nome do homem que o trara. Nada o fazia feliz desde a morte de Isabella, nem mesmo a jovem cantora que conhecera em um bar de Cancun recentemente. Sentira-se atrado por e por causa da semelhana com Isabella. Mandara alguns subordinados irem busc-la certa noite depois da apresentao. Divertira-se com ela, mas a violenta repulsa demonstrada pela jovem o enfurecera, e ela tambm sentira o peso de sua ira. Acabara com a prpria vida pulando pela janela, incapaz de tolerar a idia de ser possuda pela segunda vez. A morte da jovem o ferira, mas no profundamente quanto a de Isabella. Nada mais poderia causar dor to profunda.

Eb no se aproximara da casa o dia todo. Depois de colocarem Stevie na cama, Jssica e Sally sentaram-se na sala e ficaram esperando pelas doze badaladas do relgio.
 Chegou a hora - Sally comentou com a voz trmula ao ouvi-las.
Jssica s assentiu. Havia tomado uma deciso, e chegara o momento de arcar com as conseqncias.
Ainda podiam ouvir o eco da dcima segunda badalada, quando o ronco de um helicptero soou distante. A aeronave aproximava-se rapidamente.
-  Abaixe-se  Jssica gritou, deitando-se no tapete. 
Uma exploso sacudiu a casa.
A fumaa penetrou pela chamin e encheu a sala. Do lado de fora, estrondos de armas de fogo eram seguidos pelo som do impacto contra um objeto metlico. Uma segunda exploso  iluminou o cu seguida por um estrondo.
 L se foi o helicptero - Jssica comentou.  Voc est bem?
 Sim, mas temos de sair  ela respondeu tossindo. 	A fumaa vai nos sufocar! - Ajudou Jssica a levantar-se e levou-a at o hall. Depois correu ao quarto de Stevie e retornou com o menino nos braos. Era como um pesadelo, mas no tinha tempo para preocupar-se. Precisava salv-los. S esperava que os homens de Lopez no estivessem l fora.
Quando abriu a porta e os trs surgiram na varanda, Doug corria na direo da casa. Estava vestido de preto, com o rosto mascarado e armado. Outros homens em trajes semelhantes corriam para os fundos da casa.
- Venham comigo!  Eb levou-os at o bosque, onde embarcaram em um veculo utilitrio. - Tranquem as portas e fiquem a dentro at terminarmos de examinar a casa.
Batidas na janela do passageiro, ao lado de Sally provocaram um sobressalto coletivo. Dallas retirou a mscara e sorriu enquanto guardava um rdio-transmissor num compartimento do cinto.
 Pegamos o helicptero  ele contou assim que a janela foi aberta.  Foi s uma bomba de fumaa.
 E os tiros?  Jssica indagou.  Algum ficou ferido?
 O helicptero estava equipado com armas modernas, mas o atirador no era dos melhores.
 Graas a Deus!
Dallas tocou o rosto de Jssica e afagou os cabelos de Stevie.
- No tenham medo. No deixarei nada de mal atingi-los.
Jssica estendeu a mo para toc-lo e sufocou um soluo. Dallas beijou seus olhos molhados.
Num impulso, Stevie abraou o grande homem louro. Ao v-los, Sally sentiu-se vazia e sozinha. Mesmo que no soubessem, os trs j eram uma famlia.
O rdio na cintura de Dallas chiou.
- Tudo bem  Doug anunciou do outro lado.  Estou telefonando para o xerife enquanto os rapazes abrem as janelas e ligam o depurador de ar. Assim que a fumaa dissipar-se, trancaremos a casa novamente.
- E...
 Levaremos as mulheres e Stevie para o rancho conosco. No podemos deix-los aqui pelo resto da noite. Sally?
Dallas aproximou o rdio de seus lbios.
- Sim?
- Venha me ajudar a pegar algumas roupas para vocs. Dallas, leve Jssica e Stevie. Ns os alcanaremos em seguida.
 Certo.
Sally desceu do automvel. Dallas sentou-se atrs do volante e partiu. Pelo menos Jssica e Stevie estavam seguros.
Eb a esperava na sala enfumaada. A mscara pendia dos mesmos dedos que seguravam a pistola automtica, e ele parecia implacvel e furioso. Ao v-la, limitou-se a abrir os braos para receb-la. Depois de alguns minutos ele a levou ao quarto, enquanto meia dzia de homens reviravam todos os cantos da casa.
 Acabou  disse.  Pegue algumas roupas para vocs trs, mas apenas o essencial. Quero tir-la daqui assim que o xerife chegar.
O xerife?
 No posso fazer justia com minhas prprias mos. Houve um ataque, e a policia tem de ser notificada, O mais importante  que est aqui, inteira, sem nenhum arranho.
- Mas muito abalada.
 Sei como acalm-la.  E tomou-a nos braos para um beijo ardente.
Sally retribuiu com paixo, ate que ele encerrou o beijo.
 No imagina o que passei  Doug murmurou.  No sabamos o que encontraramos quando corremos para c. Estvamos preparados para tudo, mas o helicptero aproximou-se voando abaixo da linha do radar. E quando ouvimos o motor, s tivemos tempo para disparar contra a aeronave enquanto a bomba era lanada.
- Foi horrvel, mas felizmente estamos bem.
 Sim. E depois do perigo, um poderoso afrodisaco, eu a desejo ainda mais.
Sally sentia a mesma paixo, mas no teve tempo para confessa-la. Atnita, ficou parada no meio do quarto enquanto Eb saa para ir ao encontro de seus homens.
Sally respondeu s perguntas do xerife, viu Eb fechar a casa e foi levada para o rancho Scott enquanto o resto dos homens ocupavam suas posies no bosque.
- No creio que Lopez tente outro ataque esta noite, mas prefiro no correr riscos.
- O que faremos agora?
 Voc e Stevie sero levados at a escola, e Jess ficar em minha casa. L no terei de me preocupar com escutas. Especialmente nos quartos.  - E fitou-a com um brilho sensual nos olhos. 
Sally sabia o que ele tinha em mente, e seu corao disparou. A nica preocupao que tinha era saber como sobreviveria se Doug fizesse amor com ela e depois partisse.

Quando chegaram ao rancho, o criado de Eb j havia acomodado Stevie e Jssica. Dallas estava na sala, perto do corredor. Cansado, Doug despediu-se do companheiro e, segurando a mo de Sally, percorreu todo o corredor ate uma porta dupla de aparncia imponente.
 Aonde vamos?  ela indagou curiosa.
 Para a cama. No est cansada?
A sute era impressionante. Doug trancou a porta e abriu uma das gavetas da cmoda para pegar um pijama de seda azul.
- Podemos dividi-lo. Voc usa a blusa, e eu fico com a cala.
 Doug...
Ele a tomou nos braos e beijou-a, acariciando a pele sensvel de suas costas sob a blusa, subindo lentamente at encontrar seus seios. Era impossvel conter o desejo ou insistir nos protestos.
Antes que percebesse o que acontecia, Eb a despiu e vestiu com a blusa do pijama, que colocou por sua cabea sem sequer desaboto-la. Depois afastou as cobertas, pegou-a braos e colocou-a na cama. 
 Descanse  disse.  Virei me deitar assim que trocar algumas palavras com Dallas e verificar os monitores.
Estava to cansada que adormeceu segundos depois de ouvir o som da porta se fechando, certa de que mergulharia em um mundo de sonhos e imagens sensuais.



CAPTULO X

Sally acordou ao amanhecer com a mo de Doug tocando seu rosto.
 Bom dia, Bela Adormecida. Lamento interromper seu sono, mas o relgio no quarto de Dallas vai despertar dentro de cinco minutos. Ele cuidar de voc, de Jssica e Stevie.
- Dallas...
 No tenho foras para passar todo o tempo a seu lado sem toc-la, e preciso proteger sua virtude.
 O que est dizendo?
 No seduzo virgens, docinho. 
Ele riu.
 Doug!
 Por outro lado, tenho planos para ns dois. Sei que pode conviver com meu estilo de vida, e pretendo abandonar at mesmo os cursos de estratgia quando as crianas nascerem...
 Crianas? O que est dizendo?
- Bebs, Sally. Vamos ter alguns, no?
- Quer ter filhos... comigo?  Devia estar sonhando!
-  claro que sim! Mas, antes disso, vamos nos casar. Afinal, estamos em Jacobsville, e voc  uma professora. Temos de cuidar de sua reputao. Assim que tudo isso acabar, ns nos casaremos.

Minutos mais tarde, Eb e Sally reuniram-se com Dallas e Jessica na cozinha, onde Stevie tomava o caf. Doug estabeleceu as regras para a semana seguinte, determinando como e quando Sally e Stevie deveriam ser transportados para as aulas.
 Por que no deixamos o garoto fora da escola at o fim dessa histria?  Dallas sugeriu.  No gosto da idia de coloc-lo em risco.
 Nem eu  concordou Jess , mas talvez ele no esteja correndo riscos. Lopez tem uma fraqueza por crianas.
  verdade  Doug confirmou.
 Vamos seguir nossa rotina habitual. Talvez Lopez cometa um erro, e ento o pegaremos.
 Rodrigo telefonou ontem  noite  Doug contou. J est na cidade, em seu posto. Parece que ele tem um parente distante em Houston qu trabalha como mula para Lopez. Ele conseguiu um emprego para Rodrigo como motorista de caminho na nova operao em Jacobsville. Assim que Lopez desistir de Jess, essa operao ser nosso prximo objetivo.
 Ouvi dizer que o nome dele est no topo da lista de procurados da Diviso de Narcticos  disse Jssica.  H uma recompensa de cinqenta mil dlares por sua captura.
 Lopez  capaz de dobrar a oferta para livrar-se, mesmo que houvesse algum louco o bastante para ir a Cancun  atrs dele. 
 Micah Steele iria  Dallas apontou.
Doug riu.
Tem razo. Mas ele est no exterior trabalhando em um caso com Cord Romero e Bojo Luciene. Bem, amanh eu seguirei Sally e Stevie at a escola. Dallas ir busc-los, e esperaremos pelo melhor.
 O melhor seria a desistncia de Lopez - Dallas opinou  Jssica, j considerou a idia de entrar em contato com seu  informante? Se o trouxermos de volta aos Estados Unidos, poderemos inclu-lo no programa de proteo  testemunha.
  verdade, mas no sei onde encontr-lo. Todos que poderiam ajudar-me a localiz-lo esto mortos.
 Todos morreram?
 Sim, h seis meses, pouco antes do meu acidente.
 Rodrigo pode conseguir alguma informao.
 E possvel  Eb concordou com o companheiro - Jssica, pode confiar nele e revelar o nome de seu informante. Sei que no quer coloc-lo em risco, mas no poderemos proteg-lo se no o encontrarmos. 
 Tem certeza de que posso confiar nele?
 Absoluta.
 Est certo. Quando posso conversar com Rodrigo.
 Amanh depois da aula. Pedirei a Cy Parks que v entregar um bilhete. O encontro vai parecer uma coincidncia, e assim Lopez no desconfiar de nada.
Jssica apoiou a cabea no ombro de Dallas.
 No imaginam como gostaria de mudar o passado. Muitas pessoas esto correndo risco de vida, e tudo porque no fiz meu trabalho como devia.
 Fez o que qualquer um de ns teria feito  Dallas garantiu.  E conseguiu mandar Lopez para a cadeia. A culpa no  sua se ele conseguiu escapar e sair do pas.
- Vai se casar com minha me?
 Stevie!  Jssica censurou o garoto.
 Sim, eu vou  Dallas respondeu rindo.  Ela ainda no sabe disso, mas vamos nos casar. O que acha da idia, Stevie?
 Radical!
Sally respirou aliviada, certa de que tudo acabaria bem. Jssica se casaria com Dallas, e ela poderia ser feliz ao lado de Doug, sem ter de preocupar com a tia e o primo.
Eb os seguiu at a escola e, uma vez dentro do prdio, Sally sentiu-se segura. Segurando a mo de Stevie, seguiu para a sala de aula sorrindo para todos que encontrava nos corredores.
 Tudo vai ficar bem, no , tia Sally?  Stevie perguntou na porta da sala.
 Creio que sim - ela respondeu ao entrar.
 Enquanto selecionava o material para a primeira hora de aula, Sally ouviu uma comoo no fundo da sala.
 Qual  o problema?  quis saber. 
Um garoto torceu o nariz.
 Srta. Johnson, h uma poa no cho aqui atrs, e o cheiro  terrvel!
Depois de certificar-se de que a criana dizia a verdade, Sally foi chamar um funcionrio. Um homem alto e quieto atendeu ao chamado.
 Bom dia, Harry.
 Bom dia, srta. Johnson.  difcil ficar aqui dentro com aquele dia lindo l fora  ele comentou enquanto limpava o cho com um pano.  Devia estar pescando no rio.
 Sinto muito, mas  bom saber que podemos contar com voc aqui.
Harry comeou a retirar-se, mas a ala do balde se quebrou e ele teve de parar para impedir que a gua casse no cho.
 Puxa! Agora vou ter de carreg-lo com as duas mos. Posso pedir ajuda a uma das crianas? No consigo carregar o balde e a vassoura... 
- Eu vou!  Stevie ofereceu-se.
 Eu o mandarei de volta em alguns minutos, srta. Johnson. Obrigado.
 Por nada. Stevie volte logo.
O corredor estava movimentado. Sally no considerou o acidente importante, at cinco minutos mais tarde Stevie ainda no havia retornado.
Deixando um vigia em seu lugar, ela foi procurar pelo primo. O balde quebrado e vassoura estavam no armrio no final do corredor, mas Stevie desaparecera. O funcionrio esta cho, inconsciente.
Desesperada, Sally foi telefonar para Eb e chamar uma ambulncia. Harry sofrera apenas uma concusso, mas foi levado ao hospital por medida de segurana. Como fora to ingnua. Devia ter imaginado que Lopez enviaria algum  escola.
Eb chegou acompanhado pelo chefe de policia, Chet Blake, e os dois vasculharam o prdio. Stevie havia sumido. Outro funcionrio disse ter visto um desconhecido deixando a escola com o garoto e entrando em uma caminhonete marrom. 
Com base nessa informao, a polcia emitiu um boletim, mas era tarde demais. A caminhonete foi encontrada minutos mais tarde, abandonada em um estacionamento de supermercado. Stevie fora levado pelos bandidos. 

Naquela tarde, todos esperaram pelo telefonema que certamente aconteceria. Jssica e Sally no paravam de chorar, e Eb s queria pegar os bandidos e acabar com eles.
Mas teve de controlar-se quando atendeu a ligao.
 Muito bem  disse uma voz fria e contida do outro lado - a me de Stevie vai revelar o nome que queremos, ou nunca mais ver o filho.
 Ela teve de ser sedada  Eb mentiu.  Est inconsciente.	
 Voc tem uma hora. Nem um minuto a mais. A ligao foi interrompida. Doug praguejou.
- O que faremos?  Sally indagou aflita.
Ele telefonou para Cy Parks.
 Conseguiu mandar aquele recado, Parks?
 Sim, e j tenho um nmero. Estamos em canal seguro?
 Certamente. Pode falar.
Cy forneceu um nmero de telefone.
 Ele deve estar l agora. O que posso fazer para ajudar? 
 Nada. Apenas tora por ns.
 No tenho feito outra coisa.
Doug desligou e discou o nmero que acabara de anotar. Uma voz masculina soou do outro lado depois do quarto toque.
 Rodrigo?
 Sim, sou eu.
 Vou passar o telefone para Jssica e sairei da sala. Ela vai lhe dizer o nome. Sabe o que fazer com ele.
 Pode apostar nisso.
Jssica ficou sozinha na sala. Segurando o telefone, respirou fundo antes de falar:
 Isabella Medina. Ela trabalhou como criada na casa de...
- Cus! Ento no sabe?  Rodrigo exclamou do outro lado.
 No sei o qu?
 Isabel foi encontrada morta em uma praia em Cancun pouco antes da priso de Lopez. Morreu afogada.
- Meu Deus... Pensei que ela houvesse desaparecido para escapar do poder de vingana de Lopez. Apenas trs pessoas sabiam sobre Isabella, e todas morreram em circunstncias misteriosas.
 Esse  o nome que Lopez quer?
 Sim. E ele tem meu filho!
 No tem nada a perder revelando a informao, tem?
- No, mas  possvel que ele nem se lembre da jovem.
 Lopez apaixonou-se por ela. Na verdade, todas as namoradas dele acabaram mortas. A ltima, uma cantora de um bar de Cancun, morreu h poucas semanas nas mos dele. No h provas,  claro. A causa oficial  suicdio.
Ele falava como se tivesse interesse pessoal no assunto.
- Conhecia a cantora?  Jess perguntou.
- Ela era minha irm.
 Oh! Eu sinto muito...
 Eu tambm. D o nome que Lopez procura. Ele no far mal algum ao garoto. J deve saber disso, no?
 Sim, eu sei. Lopez nunca ataca crianas. Mas isso diminui minha aflio.
 Imagino que no. Diga a Scott que entrarei em contato. Ele no deve telefonar novamente. Quando tiver algo de concreto irei procur-lo.
 Eu direi. Obrigada.
 De nada. E desligou.
Jssica foi ao encontro dos outros mantendo uma das mos na parede para orientar-se.
 E ento? - Sally perguntou.
 A pessoa a quem desejava proteger est morta. - Jssica revelou com tristeza, - Lopez a matou.
 E agora?
 Vou revelar o nome. Nada mais poder prejudic-la. Ela era to corajosa! Foi trabalhar na casa de Lopez e fingiu estar interessada nele, s para obter informaes que pudessem lev-lo  cadeia. Os pais e a irm dela haviam sido mortos no vilarejo onde viviam pelos homens de Lopez por terem delatado o trfico de drogas a um oficial do governo. A pobrezinha estava quase doente de medo e dor, mas tambm estava disposta a tudo para deter as atrocidades de Lopez.
 Sinto muito  Eb comentou.
 Eu tambm. E se Lopez no acreditar em mim?
 Ele acreditar
  o que esperamos  Dallas concordou preocupado.
Sally abraou a tia, que choramingou emocionada.
 No sei o que faria sem voc Sally.
 Vai descobrir em breve  ela riu.
 Por qu? Vai me abandonar?
 Vai se casar com Dallas, no? 
- Sim, mas...
 Sally e eu vamos nos casar, Jess . Eb anunciou sem rodeios.
Era tudo que esperava ouvir. S no estava completamente feliz porque, apesar de todas as garantias sobre a nica virtude de Lopez, no sossegaria enquanto Stevie estivesse nas mos dos bandidos. Esperava que Lopez devolvesse o garoto assim que Jssica revelasse o nome de sua informante. Era a nica esperana que tinham, e Sally decidiu agarrar-se a ela.


CAPTULO XI

 O prprio Lopez telefonou no horrio marcado. Jssica atendeu, revelou o nome de sua informante e estranhou a reao do outro lado da linha. O baro das drogas estava chorando?
 Isabella  ele gemeu.  Eu a amei. Nunca confiei tanto em outra mulher. Mas ela no me queria. Devia ter percebido!
 Voc a matou, no?
 Sim, embora sem inteno. Eu a agredi num momento de raiva e quando percebi o que havia feito, j era tarde demais. Todo o arrependimento no foi suficiente para traz-la de volta  vida. Isabella era to prxima de mim, to ntima, que sabia coisas que nenhum outro ser humano conhecia. Cheguei a estranhar sua curiosidade, as perguntas freqentes, mas fui vaidoso o bastante para acreditar que ela me amava.  Ele fez uma pausa breve. - O menino ser libertado dentro de cinco ,minutos. Tem minha palavra de que ele no foi ferido. Poder encontr-lo na loja de brinquedos ao lado da sorveteria da cidade. E garanto que nunca mais sofrer ameaas. J tenho arrependimentos... demais.  E desligou.
Apesar de tudo, o bandido era um homem de palavra, e Jssica e Dallas encontraram o garoto no local determinado. Doug e Sally testemunharam a reunio emocionada.
 L est ele  Dallas apontou, vendo o filho sentado no cho da loja, brincando com um elefante eletrnico.
 Onde?  Jssica perguntou emocionada, estendendo os braos para a frente.  Stevie!
 Mame!  ele correu ao encontro dos braos abertos.  Puxa,  bom v-la novamente. Senti tanto medo! Aquele homem no me machucou. Ele me ensinou a jogar pquer e me deu refrigerante e sorvete, mas prefiro ficar em casa. Aventuras so muito divertidas na televiso, mas na vida real...
 Voc foi muito corajoso, campeo  Dallas elogiou tomando-o nos braos para um abrao emocionado.  De agora em diante, iremos a todas as lutas e levaremos sua me conosco. Prestaremos muita ateno aos golpes e depois os descreveremos em detalhes para que ela entenda o que acontece no ringue.
 Radical!
Jssica abraou pai e filho, aliviada com o fim do pesadelo. Sally segurou o brao de Eb e sorriu.
 Posso levar o elefante?  Stevie perguntou.
 Pode levar um circo inteiro, se eu encontrar um esteja  venda  Dallas brincou.
Rpido, pagou pelo brinquedo e voltou ao carro levando Jssica e Stevie.
Assim que entraram na caminhonete de Eb, Jssica suspirou.
 Agora acabou.
 Ainda no, meu bem  Dallas lembrou. Voc e Stevie esto fora de perigo, felizmente, ms ainda temos de pegar Lopez e mand-lo de volta para a cadeia. No podemos permitir que ele continue distribuindo drogas pelo mundo, nem que monte um brao de sua organizao aqui em Jacobsville. Ele vai ter de pagar por tudo que fez.

Sally e Eb se casaram numa cerimnia tradicional na igreja de Jacobsville. No havia nenhuma celebridade presente, mas o grupo de mercenrios e agentes secretos era maior que a cidade j vira. Do lado do noivo, homens vestidos de preto e usando culos escuros ocupavam todos os espaos nos bancos de madeira, alguns olhando desconfiados para os convidados da noiva, que eram poucos, mas muito alegres. Alguns agentes optaram pela outra metade da igreja. Dallas por exemplo, estava sentado ao lado de Jssica, tia da noiva e sua futura esposa. Stevie, filho do casal, aguardava solene pela entrada da prima. Callie, a jovem que estudara com Sally, mantinha os olhos fixos no altar, temendo olhar para o lado e encontrar Micah Steele. Srio, o agente a observava sem disfarar o interesse e a ternura.
Sally entrou na igreja sozinha, j que no tivera tempo de entrar em contato com os pais. Na verdade, nem pensara em convid-los para o casamento. Depois de tantos anos de silncio, seria hipocrisia procur-los agora. E, francamente a nica pessoa que realmente importava em sua vida era Eb. O homem com quem se casaria. O homem que escolhera. O homem que amava.
Amava Jssica e Stevie,  claro, mas sabia que eles estariam seguros ao lado de Dallas Kirk. Seguros e felizes. Agora formavam uma famlia, embora o casamento ainda no houvesse acontecido. Dallas e Jssica finalizavam os planos para a cerimnia, e logo seriam marido e mulher. Stevie adorava a idia de ter um pai novamente, e Dallas no media esforos para agrad-lo.
Depois do casamento, os noivos embarcaram num Learjet, fretado para a viagem de lua-de-mel, a Puerto Vallarta, no Mxico. Fizeram amor pela primeira vez logo que chegaram  ao hotel, apesar do cansao, e Sally descobriu que a experincia era muito melhor do que havia imaginado. Passaram a noite toda descobrindo os mistrios do amor e do sexo, e na manha seguinte saram para explorar as belezas da velha cidade.  noite, explorariam um ao outro novamente.
Uma semana mais tarde, quando voltaram ao rancho Scott, Eb e Sally encontraram um furor de atividade. Um agente secreto da Diviso de Narcticos, um homem cuja esposa se chamava Lisa Monroe e morava no rancho vizinho ao de Cy Parks, fora encontrado morto. Aparentemente conseguira infiltrar-se na organizao de Lopez e fora assassinado. Rodrigo continuava infiltrado, e Eb preocupava-se com ele. O depsito atrs da propriedade de Cy estava quase pronto, e a ao alcanava um estgio em que os eventos comeariam a precipitar-se.
- Bem, pelo menos tivemos uma lua-de-mel  Eb comentou.
-  verdade, E agora voc vai retomar a grande aventura.
E voc tambm. Afinal, lecionar para uma classe de crianas de cinco e seis anos  uma grande aventura diria.
- Tem razo  -  ela riu.  E ser sua esposa  outra grande aventura. Mas vai ter de me prometer que nunca mais se deixar atingir por um tiro.
 Tem minha palavra... de escoteiro  ele riu.
 Eb Scott, voc nunca foi escoteiro. 
- Eu sei.
 Se algum dia decidir enfrentar o campo de batalha outra vez, saiba que estarei a seu lado carregando a munio.
 Voc  uma mulher especial, Sally.
-  bom saber que notou.
 Sorte minha.  E beijou-a.
Sally o abraou e correspondeu com todo o amor, segura na certeza de ser amada pelo homem que escolhera. Haveria sempre a ameaa do perigo, mas nada que um mercenrio e sua mulher no pudessem enfrentar e resolver. Mas, por enquanto, tinha seu soldado, da fortuna bem ali, a seu lado, no lugar onde o queria: em seus braos.
***Fim***

